segunda-feira, 14 de maio de 2012

A Pirâmide da Alimentação Saudável Body Temple

A apresentação da nossa pirâmide tem suscitado as mais diversas reacções e questões pertinentes por parte de académicos, clientes e simples anónimos.
Em relação aos objectivos e aspirações da pirâmide, penso que o disclaimer é bastante claro, pelo que não iremos abordar a pirâmide nessa perspectiva.
Relativamente ao conteúdo da nossa pirâmide, negar a influência da dieta do paleolítico ou dieta evolucionista (se preferirem) seria um acto de enorme desonestidade e injustiça. Assim, importa clarificar alguns aspectos desta dieta, de modo a que todos compreendam os seus fundamentos e benefícios:
O que é concretamente a dieta do paleolítico?
Bom, não nos estendendo nesta temática, até porque não somos especialistas e existem pessoas muito mais competentes para dissecar este assunto. Iremos resumir a dieta do paleolítico ao seguinte: acredita-se que a alimentação praticada pelos nossos antepassados caçadores-recolectores é a mais correcta e aquela que melhor se adequa ao nosso DNA.


Foi com base numa dieta rica em carne e peixe fresco, frutos secos, tubérculos, vegetais e algum mel (que se encontraria de forma ocasional), que nos foi permitido sobreviver até ao presente.
Jacques Médart em relação ao Homo Sapiens da era pré-agrícola no “Guia Prático Climepsi da Nutrição” diz o seguinte:

“O Homo sapiens conhecia, evidentemente, períodos de fome, mas a sua alimentação não tinha uma carácter patogénico e, pelo contrário, acabou por assegurar a sua perenidade.”

O Homo Sapiens tem uma existência documentada de cerca de 160 mil anos, e o primeiro hominídeo, de cerca de 6 milhões de anos. A grande maioria dos alimentos que consumimos são da era agrícola ou da era agro-industrial. Isto significa que, na melhor das hipóteses, estes alimentos têm 10 mil anos de existência na nossa dieta.

Os alimentos da era agrícola ou agro-industrial não têm qualquer relevância em termos evolutivos, uma vez que muitos destes alimentos são bastante recentes quando olhamos para a nossa dieta numa perspectiva evolucionista. Se olhássemos para os últimos 10 mil anos (inicio da era agrícola) em termos evolutivos, poderíamos efectuar o seguinte paralelismo em relação a 1 ano de calendário:


De 1 de Janeiro a 31 de Dezembro – Era pré-agrícola
Final da tarde do dia 31 de Dezembro – Era agrícola
Últimos 2 minutos do dia 31 de Dezembro – Era Agro-industrial.


Os nossos genes foram seleccionados para a sobrevivência até há cerca de 10 mil anos atrás. Segundo Stephen Hawking (in The Universe In a Nutshell), o gene humano não sofre alterações significativas desde, precisamente, esse período.

Provavelmente você estará a interrogar-se: como seria possível aos nossos antepassados conseguir manter um estilo de vida activo, em condições extremamente austeras inerentes a viver ao relento, estando em constante contacto com outros predadores e sem qualquer ajuda da medicina (antibióticos ou mesmo as mais básicas condições de higiene)?

Bom, a verdade é que o Homo sapiens sapiens, por exemplo o homem de Cro-Magnon, surgiu cerca 20 mil anos antes da era agrícola. Possuía um encéfalo extremamente semelhante ao nosso, media cerca de 1.80m, era musculado e extremamente atlético.

Comia fundamentalmente proteínas magras provenientes da carne e do peixe, os seus hidratos de carbono (H.C.) eram provenientes essencialmente de vegetais e tubérculos (a carne e o peixe também fornecem H.C. - não esquecer o glicogénio) e comia poucas gorduras. As poucas gorduras que consumia eram polinsaturadas, de origem vegetal e de enorme qualidade.




“Ninguém sabe o que os nossos antepassados comiam!”
Segundo os Antropólogos é possível determinar que tipo de alimentos eram ingeridos pelos nossos antepassados. Quer pela flora e fauna existentes nesse período, quer pelas características somáticas apresentadas pelos indivíduos. No entanto, esta tem sido a afirmação mais usada para contestar a dieta do Paleolítico. Antes de colocarmos em causa o trabalho dos antropólogos e dos arqueólogos que são, de forma geral, cientistas bastante competentes, porque não facilitar o exercício e fazer a pergunta ao contrário - o que é que nós sabemos que não comiam?

Bom, considerando o que já foi referido anteriormente, pensamos que por esta altura você já terá uma ideia muito clara da resposta. Os nossos antepassados, seguramente, não ingeriam cereais (lembre-se que estes só entram na nossa dieta há cerca de 6 mil anos), massa, arroz, leite ou derivados. No entanto, estes nossos antepassados conseguiam permanecer activos o suficiente para caçar, apresentando um físico capaz de impor respeito a um atleta de elite dos nossos dias.

Também é claro que não ingeriam alimentos como fast-food, bolos, gelados, chocolates, gorduras processadas, açúcar processado.

Os nossos antepassados também não adicionavam sal aos alimentos. A dieta do paleolítico continha cerca de 1g de sódio (Na) para 6g de potássio (K). Infelizmente, evoluímos de uma dieta de 1g de sódio para uma dieta de cerca de 9,6g em países desenvolvidos como, por exemplo, os EUA. A ingestão de potássio (K) nos nossos dias dificilmente atingirá as 2g tal é o empobrecimento dos solos.

Na natureza, de forma geral, o rácio Na/K é de 1:7. Mesmo os peixes que vivem num ambiente de elevada concentração de Na como o oceano, apresentam um rácio no seu organismo Na/K de 1:5.




Seriam os nossos antepassados saudáveis?
Os dados antropológicos apontam no sentido de os nossos antepassados serem muito saudáveis. Alguns defendem que o Neandertal teria uma esperança média de vida entre os 12 e os 15 anos, e que esta seria a razão pela qual não apresentava doenças. Assumindo que os nossos antepassados viveriam menos que nós, pergunto-me se seriamos capazes de fazer melhor, vivendo ao relento, expostos ao rigor do tempo e em contacto constante com outros predadores, sem água potável, em circunstâncias em que, por exemplo, uma simples ferida num pé poderia infectar e ser fatal.

Esta questão de que os nossos antepassados teriam uma esperança média de vida inferior à dos nossos dias parece não reunir consenso entre os especialistas. No entanto, convém perceber que a esperança média de vida não é indicadora da saúde duma população, é apenas um cálculo bastante simples que consiste em dividir o somatório das idades pelo número de habitantes duma terminada população (a vulgar média).

Parece evidente que não se consegue desta forma apurar a qualidade de vida dos habitantes em termos de saúde. Para além disso, muitas das pessoas que afirmam não ser possível determinar o que os nossos antepassados ingeriam, não são da área da Antropologia – são essencialmente da área da nutrição.
Então, o que é que nos revelam os antropólogos relativamente à qualidade de vida e saúde dos nossos antepassados? Segundo a Antropologia, os nossos antepassados não apresentavam cáries ou malformações ósseas o que indica que tinham uma alimentação muito rica e correcta do ponto de vista nutricional.

O facto de apresentarem uma estatura tão alta como a nossa, ou eventualmente ainda maior, também é um factor a ter em consideração e é indicador de uma alimentação rica. A taxa de mortalidade infantil era também baixa entre os caçadores recolectores – friso novamente a ausência de tratamento médico e de medicamentos nestas comunidades. Os nossos antepassados também não apresentavam sinais de cancro, diabetes, doenças degenerativas, doença cardiovascular, miopia ou mesmo acne. Segundo alguns antropólogos, 10% dos nossos antepassados atingiriam mesmo os 60 anos de idade.

O facto é que as civilizações caçadoras-recolectoras nos nossos dias apresentam não só uma esperança média de vida elevada, como também índices de saúde bastante elevados (por exemplo, os habitantes de Kitava – Ilhas Trobriand).
Concluindo, foi nosso objectivo introduzir novos elementos na nossa pirâmide que pensamos também contribuírem para a sua saúde e bem-estar. Iremos, no futuro, tentar explicar e justificar a inclusão destes novos elementos, sobretudo os elementos não alimentares que compõem a base da nossa pirâmide.

A nossa pirâmide foi concebida apenas com o intuito de lhe dar uma visão nova sobre a dieta e a nutrição. Tivemos o cuidado de distinguir os vários tipos de vegetais, frutos, cereais e tubérculos. Irá encontrar vegetais pobres e ricos em amido, frutos de alta e baixa carga glicémica, cereais com glúten e cereais sem glúten, e também a distinção dos tubérculos de alta e baixa carga glicémica. Uma vez que os alimentos referidos provocam diferentes respostas fisiológicas, achámos que seria uma mais valia sublinhar este facto.

Não temos a arrogância de ter as respostas, mas pensamos já ter adquirido o direito de fazer algumas perguntas. Se entender que esta pirâmide o poderá ajudar a ser mais saudável, ficamos contentes que assim seja. Se achar que não faz qualquer sentido, agradecemos a sua paciência e disponibilidade para olhar para o nosso trabalho.


Nunca deverá optar pela dieta do paleolítico sem consultar primeiro um profissional da área da nutrição.






Em baixo, alguns comentários de profissionais de diversas áreas que decidiram dar o seu contributo:

Dr. Joaquim Marote--Químico (ramo cientifico) Mestre em Ed. Especial
Gostaria de vos felicitar pela sugestão inovadora de reformular a pirâmide dos alimentos acrescentando alguns itens que, hoje em dia, com o fast food e a quase erradicação dos alimentos integrais levou o ser humano a uma alimentação seriamente desequilibrada, já para não falar do sedentarismo desmesurado. As vossas sugestões (inclusão do exercício físico entre outros) levam o cidadão comum, na pior das hipóteses, a uma reflexão sobre a sua forma de estar em sociedade que, só por isso já valeu a pena o esforço. Estou certo que a vossa pirâmide traz à luz da ciência o subir de mais um patamar para a promoção do bem-estar.


Dr. Bernardo Barretti--Médico Ortopedista
Quanto à pirâmide alimentar, posso dizer que há muitos anos sigo esta orientação dietética com pouco mais ou menos rigor consoante a balança. Os três primeiros patamares são o segredo da manutenção/perda de peso, bem como o manual de uma vida saudável.
A grande maioria dos médicos não concorda com esta pirâmide cetónica, muitos por desinformação, outros por má orientação. Para mim, o segredo da longevidade e de uma vida com saúde é o pâncreas, este quanto menos sobrecarregado dá uma melhor resposta desta forma regulando parte importante do equilíbrio do corpo. O baixo índice glicémico dos alimentos dos primeiros patamares da pirâmide dá um "fôlego" extra ao pâncreas.  
Com relação aos dois últimos patamares da pirâmide, bem, aí reside o pecado para aquelas pessoas com uma tendência de ganhar peso e nestas, estes dois patamares deveriam ser "visitados" muito esporadicamente.
 Claro que todo o contexto a seguir quanto às actividades físicas dentro e fora do ginásio vão corroborar com o sucesso de uma reeducação alimentar. Mas, com treino ou não, a pirâmide está muito bem composta e como já referi, tem nos primeiros três patamares o segredo de prevenção de uma série de patologias como diabetes, hipercolesterolemia, dislipidemias, (por exemplo) e estas poderão levar a situações cardiovasculares mais complicadas.




Filipe Teixeira
Direcção Técnica-Body Temple, Lda
The Tudor Bompa Institute, Portugal.
Nutrition & Performance Department of TBI.





As opiniões aqui contidas apenas reflectem a opinião do autor e não necessáriamente da empresa Body Temple Lda/Tudor Bompa Institute. Consulte sempre o seu médico ou profissional de saúde antes de enveredar por qualquer suplemento, plano alimentar ou tratamento.




Referências bibliográficas:
-“The Hunter-gatherer diet.” Hays JH. Mayo Clin Proc. 2004 May;79(5):703; author reply 703-4, 707
-“Implication of Plio-Pleistocene Homin Diets for Modern Humans.” In: “Early Hominin Diets: The Kown, the Unknown, and the Unknowable.” Cordain L., Ungar, P (Ed.), Oxford University Press, Oxford, pp 363-83.
-“A brief review of the archaeological evidence for Palaeolithic and Neolithic subsistence.” MP Richards-European Journal of Clinical Nutrition (2002) 56  β 2002 Nature Publishing Group All rights reserved 0954-3007/02.
-“Studying Children in Hunther-Gatherer societies.” Reflextions from a Nayaka Perspective. Bird-David- www.vancouver.wsu.edu/fac/hewlett/Anth302/Bird-David.pdf.
-“Long Term History of the Human Diet.” Glynn Li. Isac and Jeanne M. Sept. www.itspeed.com/bjblinder/book/secure/chapter4.pdf
-“Evolution in Health and Disease.” Second Edition, Edited by Stephen C. Stearns and Jacob C. Koella. Oxford University Press. 2008
-“The Worst Mistake In The History Of The Human Race”-Jared Diamond, Prof. UCLA School of Medicine. Discover-May 1987, pp. 64-66.
-“What Ancient Human Teeth Can Reveal?” Demography, Health, Nutrition and Biological Relations in Luistari Master Thesis in archaeology. Kati Salo, Supervisors: Prof. Ebba During (University of Stockholm), assistant Tuija Kirkinen (University of Helsinki) 2005-05-06.
-“Nutrition and health in agriculturalists and hunter-gatherers: a case study of two prehistoric populations in Nutritional Anthropology.” Cassidy CM. Eds Jerome NW et al. 1980 Redgrave Publishing Company, Pleasantville, NY pg 117-145.
-“Food and Western Disease”-Staffan Lindeberg, Wiley-Blackwell 2010
-“Guia Prático Climepsi da Nutrição”-Jacques Médart, Climepsi Editores 1ª edição 2007.
-“Nutrition for Champions”-Dr. Michael Colgan, Science Books/March 2007.
-“The Paleo Diet for Athletes”-Cordain L., Friel J., Rodale-2005.
-“The Paleo Solution”-Wolf R., Victory Belt 2010.

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