sexta-feira, 3 de agosto de 2012

A creatina é tóxica?


A principal razão que me leva a escrever este artigo, tem a ver com a frequência com que esta pergunta surge no meu âmbito profissional. Contudo, não estaria a ser totalmente honesto se dissesse que este é o único motivo. Depois de ler um artigo sobre suplementos e creatina, em que o autor afirmou, convictamente, de que não existem evidências que provem a segurança deste aminoácido, achei que seria altura de dar o meu humilde input.
Se há suplemento que é estudado exaustivamente, é a creatina. É um facto que existem mais artigos sobre a creatina endógena do que propriamente sobre a suplementação com a mesma. Ainda assim, existem pelo menos duas centenas de artigos que podem elucidar-nos em torno da sua dinâmica fisiológica, toxicidade, bioquímica etc.
Neste artigo irei apenas abordar a toxicidade, precisamente por ser mais polémica.
O que é a creatina?
A creatina tem designação IUPAC N-(aminoiminometil)-N-metil-glicina ou se preferir de forma mais simplificada, ácido aceto-metil-guanidínico.4 Está a ver porque lhe chamamos simplesmente creatina? :-)
A creatina é um macro aminoácido, sintetizado no fígado, pâncreas e rim a partir dos aminoácidos glicina, metionina e arginina. Estima-se que num organismo normal a síntese de creatina ronde 1-2 g diárias.1 A grande maioria da creatina está presente nos músculos (cerca de 95%) numa concentração de aproximadamente 125 mmol/kg de músculo seco. Assim um homem de 70 Kg deverá ter um pool de aproximadamente 120 g de creatina. Cerca de 33% desta creatina encontra-se em forma livre e 66% em forma fosforilada (PCr), estando o restante presente no coração, cérebro e testículos.2 Esta ultima (PCr) é importante no metabolismo energético, pela capacidade de ceder o seu grupo fosfato na refosforilação de adenosina difosfato (ADP) em adenosina trifosfato (ATP). 1
Assim, a creatina é fundamental em exercício intermitente de alta intensidade.3
Não me vou alongar mais sobre a fisiologia e bioquímica da creatina, porque essa temática irá ser abordada num outro artigo.
Mas existem estudos que provem a segurança da creatina ou não?!
A resposta é YES!
Eles não caiem do céu, é preciso procurar! Como ignorante inveterado que sou, tenho por hábito ler tudo o que tenha a ver com suplementos e nutrição. Chamemos-lhe assim: a minha “obsessão de estimação”.
Assim, digo-vos o pouco que sei…
Efeitos da creatina:
1-Aumento de peso---» Sim5-8
2-Inibição da síntese de creatina endógena---»Não9,10
3-Afectação da função renal e hepática---»Não11-16
4-Alterações a nível enzimático (muscular e hepático)---»Não11,13,14
5-Volémia sanguínea---»Não14,17,18
6-Marcadores gerais de saúde---»Não13,19,20,21
7-Cãimbras musculares---»Não17,21,23,26
8-Desidratação---»Não21,24,25
9-Lesões musculo-esqueléticas---»Não13,19,20,21,22,26,

Slide retirado do curso de nutrição desportiva do Tudor Bompa Institute.
Filipe Teixeira, 2012 (todos os direitos reservados).



A segurança da creatina em indivíduos adultos e saudáveis, ao contrário do que afirmam alguns autores, parece bem estudada. Também parece evidente que o único efeito comprovado da creatina, é o aumento de peso. Este aumento parece estar ligado ao aumento de massa magra e eventualmente a alguma captação de fluido no espaço intersticial.
Atenção, sublinho: ADULTOS SAUDÁVEIS
Provavelmente, não será boa ideia a quem tiver a função hepática ou renal diminuída, suplementar com creatina.
Achei importante dar-lhe os factos, para que possa tomar uma decisão consciente e informada. Ao longo da minha curta carreira como formador, sempre achei que deveria dar os factos, remetendo o juízo final para os formandos.
Também sempre disse que não tenho a pretensão de obter todas as respostas, apenas de poder fazer algumas perguntas…
Assim sendo… Se não existem estudos que provem a segurança da creatina, que raio são todas estas referências?!

Filipe Teixeira
Direcção Técnica-Body Temple, Lda
The Tudor Bompa Institute, Portugal.
Nutrition & Performance Department of TBI.


As opiniões aqui contidas apenas reflectem a opinião do autor e não necessáriamente da empresa Body Temple Lda/Tudor Bompa Institute. Consulte sempre o seu médico ou profissional de saúde antes de enveredar por qualquer suplemento, plano alimentar ou tratamento.



Bibliografia:
1. Teixeira P et al . Nutrição, Exercício e Saúde Lousã: Lidel; 2008.
2. Barata T et al. Actividade Física e Medicina Moderna. Odivelas:Europress; 1997.
3. Balsom P, Ekblom B et al. Creatine supplementation and dynamic high-intensity intermittent exercise. Scand J Med Sci Sports. 1993 3:142-149
4. Sheldon SH. PDR for Nutritional Supplements. 2nd Edition. New Jersey:Thomson Reuters; 2008.
5. Noonan D et al. Effects of varying dosages of oral creatine relative to fat free body mass on strength and body composition. J Strength Cond Res. 1998, 12(2):109.
6. Peeters BM et al. Effect of oral creatine monohydrate and creatine phosphate supplementation on maximal strength indices, body composition and blood pressure. J Strength Cond Res. 1999, 13(1):3.
7. Terjung RL et al. American College of Sports Medicine roundtable. The physiological and health effects of oral creatine supplementation. Med Sci Sports Exerc. 2000, 32(3):706.
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9. Vandenberghe K et al. Long-term creatine intake is beneficial to muscle performance during resistence training. J Appl Physiol. 1997, 83(6):2055.
10. Tarnopolsky M et al. Acute and moderate-term creatine monohydrate supplementation does not affect creatine transporter mRNA or protein content in either young or elderly humans. Mol Cell Biochem. 2003, 244(1-2):159
11. Robinson TM et al. Dietary creatine supplementation does not affect some haematological indices, or indices of muscle damage and hepatic and renal function. Br J  Sports Med. 2000, 34(4):284.
12. Poortmans JR et al. Effect of short-term creatine supplementation on renal responses in men. Eur J Appl Physiol Occup Physiol. 1997, 76(6):566.
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22. Greenwood M et al. Perceived health status and side effects associated with creatine supplementation of division I-A football players during 3-a-day training. Res Q Exerc Sport. 2001, 72(1):A.
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