domingo, 3 de fevereiro de 2013

Acetil-L-carnitina, uma breve abordagem




A acetil-L-Carnitina (ALC) é um éster acetil da conhecida L-carnitina, sendo esta última de ocorrência natural em produtos de origem animal. A designação química da ALC para os interessados é β-acetoxi-γ-N, N, N-trimetilaminobutirato. Mas... será este suplemento útil?






O que é?
A acetil-L-Carnitina (ALC) é um éster acetil da conhecida L-carnitina, sendo esta última de ocorrência natural em produtos de origem animal. A designação química da ALC para os interessados é β-acetoxi-γ-N, N, N-trimetilaminobutirato.


Outros nomes para a ALC: Acetil-carnitina, L-aceticarnitina, acetil levocarnitina, N-acetil-L-carnitina, ALC e ALCAR.

Suspeita-se que a suplementação com ALC possa apresentar alguns efeitos neuroprotectores, assim como actividade cardioprotectora (benéfica para a função cardíaca). Existe também a possibilidade de aumentar a motilidade dos espermatozóides assim como de também ter funções citoprotectoras, antioxidantes e antiapoptóticas. 


Actividade biológica:
As funções da ALC assim como da L-carnitina livre prendem-se essencialmente com o transporte de ácidos gordos de cadeia longa através das membranas mitocondriais, onde já dentro da mitocôndria a partir da β-oxidação podem ser usadas na síntese de ATP (adenosina trifosfato). 

A carnitina também transporta ácidos gordos de cadeia curta e média de dentro da mitocôndria para o seu exterior, de forma a manter os níveis de Coenzima A estáveis nestes organelos. Acredita-se que também poderá ter acção antioxidante. 

No caso da ALC, o grupo acetil é percursor do neurotransmissor acetilcolina, estando as deficiências na metabolização deste neurotransmissor associadas a patologias designadas de demências, como por exemplo a doença de Alzheimer.

Outro efeito que parece muito interessante na ALC, é a possibilidade de diminuir a glicação das proteínas oculares in vitro. Acredita-se que esta acção ocorre pela acetilação de certas proteínas oculares específicas, no caso as cristalinas.

A bioquímica no envelhecimento sofre alterações marcadas. Uma delas bem significativa, é a redução da síntese de cardiolipina no coração e a diminuição da actividade mitocondrial em geral. 

A cardiolipina é um fosfolípido essencial ao transporte mitocondrial no coração. Algumas experiências em ratos demonstraram que a suplementação com ALC aumenta a função mitocondrial assim como a síntese de cardiolipina. 

A ALC, como já foi referido, é também uma forma de energia disponível para a activação, respiração e motilidade dos espermatozóides.

Transporte e absorção:
O transporte da ALC é virtualmente idêntico ao transporte da L-carnitina não acetilada. Suspeita-se que a ALC possa ter melhor permeabilidade membranar, contudo requerem-se mais estudos que comprovem esta hipótese.

Indicações e dose recomendada:
A ALC parece ter demonstrado alguma eficácia como agente neuroprotector, podendo ser benéfica nos casos de AVC, doença de Alzheimer, síndrome de Down, assim como de várias neuropatias. 

Poderá também combater a senescência, contudo a evidência ainda é muito ténue neste sentido. Em relação aos espermatozóides, apesar da evidência ser muito promissora, os ensaios clínicos estão ainda numa fase muito prematura, faltando estudos que confirmem esta hipótese em definitivo. 

Aplica-se a mesma máxima em relação ao tratamento da lipodistrofia em doentes seropositivos. A dose recomendada de ALC varia de 500mg a 2000mg diários, ingeridos ao longo do dia.



Metabolismo da L-Carnitina. fonte: www.sciencedirect.com


Investigação


Estados patológicos:
Vários estudos demonstram resultados positivos nos parâmetros de concentração e atenção em doentes de Alzheimer. Também parece evidente que os benefícios serão claramente aumentados em doentes mais jovens. A função cognitiva também poderá ser aumentada pela possibilidade da ALC inibir a apoptose dos neurónios. 

Indivíduos com síndrome de Down também parecem beneficiar e apresentar melhorias em no que diz respeito à memória visual e atenção. Pensa-se que as melhorias tanto em doentes com Alzheimer como em doentes com síndrome de Down, estejam directamente relacionadas com efeitos directos e indirectos na sua acção colinomimética.

Os estudos também têm sugerido melhorias no declínio mental de doentes geriátricos que ainda não apresentam sintomas de demência. A acção neuroprotectora após AVC, tanto em modelos animais como em humanos também parece bem demonstrada. O fluxo sanguíneo cerebral parece melhorar significativamente com a suplementação de ALC em doentes com doença cerebrovascular.

As neuropatias periféricas também parecem melhorar com a ALC em estudos experimentais com diabéticos. Experiências em ratos parecem demonstrar que a ALC em combinação com o ácido α-lipóico, aumentam a eficiência metabólica nestes animais, diminuindo ao mesmo tempo o seu stress oxidativo.


Atletas:
Os atletas podem beneficiar sobretudo da actividade anticatabólica da ALC. Ao auxiliar no metabolismo da dopamina e da acetilcolina, estas ajudam no  córtex estriado a manter o cortisol sob controlo. 

O cortisol, conhecido como a hormona do stress é altamente catabólico no tecido muscular esquelético. 

Provavelmente esta acção irá de encontro a alguns estudos que demonstraram resultados satisfatórios na elevação da testosterona, quando combinada sob a forma de propionil-L-carnitina e ALC. A confirmar-se a maior permeabilidade da forma acetilada vs forma livre, os atletas terão todas as razões para apostar neste suplemento.


Contra-indicações, precauções e efeitos adversos



Contra-indicações: Hipersensibilidade conhecida à ALC ou a algum dos excipientes contidos no produto.


Precauções: Pela falta de estudos de segurança a longo prazo, não se aconselha a suplementação com ALC em mulheres grávidas ou lactantes. Indivíduos com epilepsia ou qualquer outra desordem do foro neurofisiológico, não deverão suplementar com ALC sem consultarem previamente o seu médico ou profissional de saúde.


Reacções adversas: Em casos raros, surgem queixas do foro gastrointestinal, náuseas, vómito, cólicas abdominais e diarreia. Em doentes com Alzheimer tem-se reportado esporadicamente aumento da agitação psicomotora com a suplementação de ALC, nos casos de patologias do foro neurofisiológico (por exemplo epilepsia), tem-se reportado aumento das crises convulsivas. Neste cenário, novamente reiteramos de que não é aconselhável a suplementação com ALC sem supervisão médica.


Interacções:
Fármacos utilizados no tratamento do HIV/SIDA (didanosina, zalcitabina e estavudina) poderão reduzir os níveis da ALC. Terapia com antibióticos contendo ácido valpróico e ácido piválico poderão, de igual forma, conduzir a carências secundárias de ALC.


Sobredosagem:
Desconhecem-se casos de sobredosagem com este suplemento.



Cumprimentos,
Filipe Teixeira
Direcção Técnica-Body Temple, Lda
The Tudor Bompa Institute, Portugal.
Nutrition & Performance Department of TBI.


As opiniões aqui contidas apenas reflectem a opinião do autor e não necessáriamente da empresa Body Temple Lda/Tudor Bompa Institute. Consulte sempre o seu médico ou profissional de saúde antes de enveredar por qualquer suplemento, plano alimentar ou tratamento.






Literatura recomendada:

-Colgan M. Sports Nutrition Guide. Vancouver:Apple Publishing; 2002.

-Hendler SH. PDR for Nutritional Supplements. 2nd Edition. New Jersey:Thomson Reuters; 2008.

-Wolinsky I, Driskell JA. Nutritional Ergogenic Aids. Boca Raton:CRC Press; 2000.

-Cavallini G, et al. Carnitine versus androgen administration in the treatment of sexual dysfunction, depressed mood, and fatigue associated with male aging. Urology 2004; 63(4):641-6.

-Wollen KA. Alzheimer’s Disease: The pros and Cons of Pharmaceutical, Nutritional, Botanical, and Stimulatory Therapies, with a Discussion of Treatment Strategies from the Perspective of Patients and Practitioners. Alt Med Rev 2010; 15(3):223-44. 

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