segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Cap. I - O que é a testosterona?




Fonte:Web
Quando ouvimos a palavra testosterona, pensamos imediatamente em virilidade, masculinidade, doping, massa muscular, agressividade etc. A palavra testosterona deverá ser muito provavelmente uma das palavras que mais reacções despoleta, em conjunto com alguma controvérsia. Não é segredo para quem me conhece, de que a bioquímica anabólica, sobretudo a vertente da endocrinologia molecular é uma das minhas áreas de eleição. Decidi assim, iniciar uma série de artigos que irão abordar esta hormona de forma relativamente profunda. Espero que seja do vosso agrado, e que no fim deste “exercício”, alguns conceitos possam ter sido esclarecidos.





Bom, antes de avançarmos para uma hormona específica, no caso a testosterona, vamos de forma geral classificar os tipos de hormonas que existem. A título de curiosidade, a palavra hormona deriva da palavra grega hormaein – para excitar (1).

O nosso organismo coordena diversas funções utilizando mensageiros químicos:

a) Neurotransmissores – São libertados pelas terminações dos axónios, que constituem parte dos neurónios na fenda sináptica, actuando dessa forma localmente no controlo das funções da célula nervosa (2).

b) Hormonas endócrinas – São libertadas por glândulas ou células especializadas na circulação sistémica, influenciando as células-alvo noutra localização do organismo (2).

c) Hormonas neuroendócrinas – São secretadas pelos neurónios na circulação sistémica, influenciando as células-alvo noutra localização do organismo (2).

d) Parácrinas – São secretadas por células para o fluido extracelular, afectando células-alvo próximas de diferente tipologia (2).

e) Autócrinas – São secretadas por células para o fluido extracelular, afectando as funções das mesmas células que as produzem (2).

f) Citocinas – São péptidos secretados por células para o fluido extracelular, que podem actuar de forma autócrina, parácrina ou endócrina. Alguns exemplos são as interleucinas e outras linfocinas que são secretadas pelas células helper e que actuam noutras células do sistema imunitário. As citocinas produzidas pelos adipócitos (ex. leptina) são também designadas de adipocinas (2).



Os vários tipos de hormonas. Fonte: Web





Em termos de estrutura química as hormonas podem ser:

1) Proteínas e polipéptidos - incluindo hormonas secretadas pela glândula pituitária anterior e posterior, pelo pâncreas (principalmente insulina e glucagina), pela glândula paratiróide (hormona paratiróide ou paratormona), entre outras (2).

2) Esteróides – São secretadas pelo córtex das glândulas supra-renais (cortisol e aldosterona), ovários (estrogénio e progesterona), testículos (testosterona) e placenta (estrogénio e progesterona). A designação esteróide aplica-se exclusivamente a hormonas produzidas na localização designada anteriormente, sendo todas derivadas do colesterol (2). Por favor não digam que a hormona de crescimento (GH) é um esteróide, porque não é verdade, assim como não é verdade que a testosterona é constituída por aminoácidos. A adrenalina (ou epinefrina se preferirem) apesar de produzida nas supra-renais também não é um esteróide, até porque a mesma é produzida na medula e não no córtex desta glândula. Desculpem a ressalva, mas são questões que penso ser importante sublinhar (de forma a que não se digam certos disparates).

3) Derivadas do aminoácido tirosina – secretadas pela tiróide (tiroxina e triiodotironina) e medula supra-renal (adrenalina e noradrenalina). Não se conhecem até ao momento hormonas constituídas por polissacáridos ou ácidos nucleicos (2).

Bom, voltando à testosterona ela é uma hormona esteróide e um androgénio. Um androgénio, ou hormona sexual masculina, é definido como uma substância capaz de desenvolver ou manter características masculinas em tecidos reprodutivos (principalmente tracto genital, características sexuais secundárias e fertilidade) e que contribui para a situação anabólica dos vários tecidos somáticos (3).

A testosterona é o principal androgénio circulante em mamíferos masculinos adultos. Possui uma estrutura característica de 4 anéis de 18 carbonos (designada de gonano ou ciclopentanoperhidrofenantreno), sendo sintetizada principalmente nas células de Leydig que se localizam nos interstícios dos testículos, entre os túbulos seminíferos (4).

Estima-se que cerca de 95% da testosterona seja produzida nos testículos, o que representa cerca de 6 a 7 mg/dia (5).

Os passos metabólicos necessários à conversão do colesterol em androgénios, acontecem nas cerca de 500 milhões de células de Leydig, que ironicamente representam apenas uma pequena percentagem do volume testicular total (4).


Análise histológica do testículo, com identificação das células de Leydig.






Glandula supra-renal com identificação das diversas regiões.




Apesar destas células, como já foi referido, serem as principais produtoras de testosterona, é necessário não esquecer que o córtex supra-renal também contribui para a produção de androgénios (4).

Também se sabe que quantidades muito pequenas de esteróides, principalmente derivados de pregnano, podem ser produzidas nas células cerebrais (6).

Apesar da contribuição das células do sistema nervoso ser praticamente insignificante para os níveis circulantes de androgénios, a sua acção local poderá ter relevância fisiológica (7).

As vias de biossíntese dos androgénios e a sua respectiva regulação têm sido alvo das mais variadas revisões (8–12), algo que iremos ver em detalhe no próximo capítulo (Cap. II – a biogénese da testosterona).





Cumprimentos,
Filipe Teixeira
Director Of Nutrition-Tudor Bompa Institute International
The Tudor Bompa Institute, Portugal
Direcção Técnica-Body Temple, Lda


As opiniões aqui contidas apenas reflectem a opinião do autor e não necessáriamente da empresa Body Temple Lda/Tudor Bompa Institute. Consulte sempre o seu médico ou profissional de saúde antes de enveredar por qualquer suplemento, plano alimentar ou tratamento.



Bibliografia:

1. Jacob, S.W., Francone, C.A., Lossow WJ. Anatomia e Fisiologia Humana. 5th ed. Rio De Janeiro: Guanabara Koogan; 1982.

2. Hall JE. Guyton and Hall - Textbook of Medical Physiology. 12th ed. Philadelphia: Saunders Elsevier; 2011.

3. Mooradian AD, Morley JE, Korenman SG. Biological actions of androgens. Endocrine reviews. 1987 Feb;8(1):1–28.

4. Nieschlag, E., behre H. Testosterone - action, deficiency, substitution. 3rd ed. New Jersey: Cambridge University Press; 2004.

5. Coffey D. Androgen action and the sex accessory tissues. In: Knobil E, editor. The physiology of reproduction. New York: J. Raven Press; 1988. p. 1081–119.

6. Baulieu EE. Neurosteroids: of the nervous system, by the nervous system, for the nervous system. Recent progress in hormone research. 1997 Jan;52:1–32.

7. King SR, Manna PR, Ishii T, Syapin PJ, Ginsberg SD, Wilson K, et al. An essential component in steroid synthesis, the steroidogenic acute regulatory protein, is expressed in discrete regions of the brain. The Journal of neuroscience : the official journal of the Society for Neuroscience. 2002 Dec 15;22(24):10613–20.

8. Rommerts FF, Brinkman AO. Modulation of steroidogenic activities in testis Leydig cells. Molecular and cellular endocrinology. 1981 Jan;21(1):15–28.

9. Ewing, L.L. Zirkin B. Leydig cell structure and steroidogenic function. Recent progress in hormone research. 1983;39:599–635.

10. Rommerts, F.F.G. CBA. The mechanisms of action of luteinizing hormone. II. Transducing systems and biological effects. In: Cooke B.A., King, R.J.B., van der Molen HJ, editor. Hormones and their actions. Elsevier Science Publishers BV; 1988.

11. Payne, A.H., O’Shaughnessy P. Structure,function,and regulation of steroidogenic enzymes in the Leydig cell. In: Payne, A.H., Hardy, M.P., Russell LD, editor. The Leydig cell. Vienna, IL: Cache River Press; 1996. p. 260–85.

12. Stocco DM, Clark BJ. Regulation of the acute production of steroids in steroidogenic cells. Endocrine reviews. 1996 Jun;17(3):221–44.


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