sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Extracto de Laranja-amarga, perigoso?




O extracto de laranja-amarga (citrus aurantium), exerce muitas das suas propostas acções através de um protoalcalóide a p-sinefrina. Podemos encontrar este extracto numa vasta panóplia de produtos, que vão desde fat burners (pelo seu pretenso efeito termogénico) a diversos pré-treinos e energéticos com o intuito de aumentar a resistência em atletas. Mas será este composto seguro?






O extracto de laranja-amarga (citrus aurantium), exerce muitas das suas propostas acções através de um protoalcalóide a p-sinefrina. Podemos encontrar este extracto numa vasta panóplia de produtos, que vão desde fat burners (pelo seu pretenso efeito termogénico) a diversos pré-treinos e energéticos com o intuito de aumentar a resistência em atletas. Antes de mais convém perceber que esta laranja-amarga, não é mais do que o fruto imaturo (verde) da laranja-de-Sevilha. Por vezes na medicina tradicional chinesa a sua designação é de “Chih-shi” ou “Zhi shi” (1).

A utilização em fat burners, justifica-se pelas suas pretensas capacidades em aumentar o metabolismo basal, a lipólise e de poder provocar uma ligeira supressão do apetite (2). Muitas das questões que têm sido levantadas em relação à segurança da laranja amarga, partem de má informação e desconhecimento da estrutura da p-sinefrina. A p-sinefrina é um derivado da feniletilamina que possui um grupo hidroxilo (OH) na posição para do anel benzénico. Por sua vez a m-sinefrina (fenilefrina) de origem sintética, possui este mesmo grupo hidroxilo na posição meta do mesmo anel benzénico, aliás a única diferença estrutural entre estes dois compostos é mesmo a posição do grupo hidroxilo neste anel.

As diferenças estruturais entre a p-sinefrina, m-sinefrina e a efedrina (9)

Em bioquímica, a simples alteração de um grupo ou a rotação espacial de uma molécula podem fazer toda a diferença! A parte mais engraçada é que a m-sinefrina, que de facto mostra efeitos cardiovasculares, não faz parte da constituição da laranja-amarga (3,4) . Apesar desta simples explicação muitos estudos e trabalhos de revisão, continuam a fazer referência à m-sinefrina como se a mesma fizesse parte do citrus aurantium (5–8)

Estudos apenas com a p-sinefrina são raros, geralmente os produtos testados possuem outros compostos pelo que se torna difícil perceber a acção da sinefrina per se. Outra situação que torna a p-sinefrina o “inimigo publico número um”, é o facto da sua estrutura ser extremamente semelhante à efedrina e a outras aminas biogénicas (9). É necessário que se perceba que a farmacocinética destas 2 moléculas (epinefrina e p-sinefrina) é bem distinta já que as mesmas apresentam diferente afinidade ao receptor, por diferenças estruturais e estereoquímicas (10,11). Outra questão inerente a estes estudos é a utilização de extractos não-padronizados, o que leva a grandes disparidades entre estudos. 

O pânico também se instalou por alguns relatórios governamentais que associaram graves efeitos adversos a este composto e até mesmo mortes (12). Estes relatórios, apesar de se provarem incorrectos, continuam até os dias de hoje a ser amplamente disseminados pela imprensa (12).

Se queremos perceber a segurança deste composto, temos de deixar de parte estudos in vitro e em cobaias, onde são usadas doses extremamente elevadas de p-sinefrina. Colker et al. (13), fizeram um estudo sobre os efeitos da laranja-amarga em 20 adultos com pré-obesidade. O produto consumido continha 975 mg de extracto C. aurantium (6% de alcalóides de sinefrina), 528 mg de cafeína e 900 mg de erva-de-são-joão (hipericão do Gerês). Estima-se que o total de protoalcalóides oriundos de derivados da feniletilamina tenha andado em torno de 58.5 mg. 

A este suplemento foi associada uma dieta de 1800 kcal/dia (American Heart Association Step One Diet) e um plano de exercício em circuito de 3 dias por semana. Concluídas as 6 semanas do estudo, o grupo que suplementou com o C. aurantium perdeu cerca de 1.4 kg e 2.9 % de massa gorda. São diferenças modestas, contudo em termos de efeitos adversos, não se encontraram alterações significativas ao nível da pressão arterial, ritmo cardíaco, da actividade eléctrica cardíaca, bioquímica sérica ou urinária. 
Os estudos com extracto da laranja-amarga estão resumidos nos quadros abaixo, da autoria de Stohs et al. (9)   





Em relação aos clinical case reports, uma revisão de Stohs et al. (14), mostrou que todos os casos reportados eram referentes a produtos com vários compostos, e que de forma inexplicável, se continuavam a atribuir esses mesmo efeitos adversos quase exclusivamente ao C. aurantium.

Em 23 estudos realizados, mais de 50% dos indivíduos eram obesos ou pré-obesos, em cerca de 2/3 desses estudos a p-sinefrina (10-53 mg/dia) foi consumida em conjunto com cafeína (9). Nestes estudos realizados em obesos ou pré-obesos, não foram reportadas alterações ao nível do ritmo cardíaco ou pressão arterial (9).   

As conclusões de Stohs et al. são claras no sentido em que a p-sinefrina de forma isolada ou em combinação com cafeína, não mostra efeitos adversos significativos ao nível cardiovascular ou mesmo para a saúde humana de forma geral (9). Não existem efeitos adversos directamente atribuídos ao extracto de laranja-amarga ou ao seu alcalóide p-sinefrina. A laranja-amarga em conjugação com outros compostos pode aumentar a taxa metabólica em repouso e quando ingerida por períodos superiores a 12 semanas levar a uma modesta perda de peso (9). Nesta revisão de literatura, os autores também concluíram que a p-sinefrina pode aumentar o metabolismo e o gasto energético (9)

Os dados presentes até ao momento, não confirmam os receios até aqui reportados. Em relação à possível actividade adversa no sistema cardiovascular, pela estimulação dos receptores adrenérgicos α, β-1,β-2 e os poucos β-3 que possuímos (se fossemos bovinos teríamos muitos) as actividades da p-sinefrina também não parecem preocupantes (9). Apesar de promissora a acção da p-sinefrina como lipolítico, a sua evidência científica ainda está longe de estar próxima da cafeína e do chá-verde (15).

O que parece urgente nesta temática é a elaboração de estudos controlados (RCT’s), aleatórios com grupo placebo, com amostras significativas e a longo prazo, de forma a perceber os reais efeitos do C. aurantium. Até lá o extracto de laranja-amarga mantém-se inocente até que se prove inequivocamente o contrário.     




Cumprimentos,
Filipe Teixeira
Director Of Nutrition-Tudor Bompa Institute International
The Tudor Bompa Institute, Portugal
Direcção Técnica-Body Temple, Lda


As opiniões aqui contidas apenas reflectem a opinião do autor e não necessáriamente da empresa Body Temple Lda/Tudor Bompa Institute. Consulte sempre o seu médico ou profissional de saúde antes de enveredar por qualquer suplemento, plano alimentar ou tratamento.




Bibliografia

1.        Chen J et al. Zhi Shi (Fructus Aurantii Immaturus). Chinese Med-ical Herbology and Pharmacology. City Of Industry, CA: Art of Medicine Press; 2004. p. 485–7.

2.        Sj S. A review of the safety and efficacy of Citrus aurantium in weight management. In: Bagchi D, editor. Obesity: Epi-demiology, Pathophysiology, and Prevention. Boca Raton: CRC Press; 2007. p. 371–82.

3.        Pellati F, Benvenuti S. Chromatographic and electrophoretic methods for the analysis of phenethylamine [corrected] alkaloids in Citrus aurantium. Journal of chromatography. A. 2007 Aug 17;1161(1-2):71–88.

4.        Sander LC, Putzbach K, Nelson BC, Rimmer CA, Bedner M, Thomas JB, et al. Certification of standard reference materials containing bitter orange. Analytical and bioanalytical chemistry. 2008 Jul;391(6):2023–34.

5.        Penzak SR, Jann MW, Cold JA, Hon YY, Desai HD, Gurley BJ. Seville (sour) orange juice: synephrine content and cardiovascular effects in normotensive adults. Journal of clinical pharmacology. 2001 Oct;41(10):1059–63.

6.        Bent S, Padula A, Neuhaus J. Safety and efficacy of citrus aurantium for weight loss. The American journal of cardiology. 2004 Nov 15;94(10):1359–61.

7.        Nasir JM, Durning SJ, Ferguson M, Barold HS, Haigney MC. Exercise-induced syncope associated with QT prolongation and ephedra-free Xenadrine. Mayo Clinic proceedings. Mayo Clinic. 2004 Aug;79(8):1059–62.

8.        Stephensen TA, Sarlay R. Ventricular fibrillation associated with use of synephrine containing dietary supplement. Military medicine. 2009 Dec;174(12):1313–9.

9.        Stohs SJ, Preuss HG, Shara M. A review of the human clinical studies involving Citrus aurantium (bitter orange) extract and its primary protoalkaloid p-synephrine. International journal of medical sciences. 2012 Jan;9(7):527–38.

10.      Stohs SJ, Preuss HG, Shara M. A review of the receptor-binding properties of p-synephrine as related to its pharmacological effects. Oxidative medicine and cellular longevity. 2011 Jan;2011:482973.

11.      Stohs SJ, Preuss HG. Stereochemical and pharmacological differences between naturally occurring p-synephrine and synthetic p-synephrine. Journal of Functional Foods. 2012 Jan;4(1):2–5.

12.      Mcguffin M. Media Spins Numbers on Bitter Orange AERs Based on Erroneous Information from FDA - Tags: REPRINTS (Publications) SOUR orange. HerbalGram. 2006;Winter 200(69):52.

13.      Colker CM, Kaiman DS, Torina GC, Perlis T, Street C. Effects of Citrus aurantium extract, caffeine, and St. John’s Wort on body fat loss, lipid levels, and mood states in overweight healthy adults. Current Therapeutic Research. 1999 Mar;60(3):145–53.

14.      Stohs SJ. Assessment of the adverse event reports associated with Citrus aurantium (bitter orange) from April 2004 to October 2009. Journal of Functional Foods. 2010 Oct;2(4):235–8.

15.      Jeukendrup AE, Randell R. Fat burners: nutrition supplements that increase fat metabolism. Obesity reviews : an official journal of the International Association for the Study of Obesity. 2011 Oct;12(10):841–51.



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