sábado, 17 de agosto de 2013

O que penso sobre a dieta paleolítica


fonte: web

Neste breve artigo, encontrará a minha opinião sobre a dieta do paleolítico e informação sobre um estudo recente efectuado com esta dieta







Como sabem simpatizo com a dieta paleolítica. Isso não me impede contudo de ser crítico em relação a muitas afirmações que são feitas em relação à mesma, sobretudo quando baseadas em dados meramente observacionais ou em algum “romantismo” de justificação evolutiva. Uma das questões que me perturba, é o argumento de que uma espécie não deverá procurar uma nova fonte de alimento, algo que de ponto de vista da biologia evolutiva é totalmente incompreensível. 

É óbvio que muitos dos “novos alimentos” introduzidos, particularmente nos últimos 100 anos, são pouco abonatórios para a nossa saúde. Ainda assim, não consigo deixar de pensar que se os nossos antepassados não tivessem experimentado “novos alimentos” (carne e peixe), provavelmente não teríamos desenvolvido o cérebro que temos. Por isso o argumento de só usar alimentos pré neolítico me deixa confuso, porque a pressão evolutiva/selectiva numa espécie (1/S) depende também da mesma procurar novas fontes de alimento. 

O conceituado Professor Richard Wrangham (primatologista Univ. Harvard), foi peremptório quando num seminário lhe perguntaram o que aconteceria se uma espécie deixasse de procurar novas fontes de alimento: “a evolução da espécie pararia”

Não sou um especialista em biologia evolutiva, aliás nem sequer sou biólogo, contudo um dos meus professores que detém um pós-doutoramento nessa área, foi categórico quando decidi apresentar-lhe os argumentos evolutivos da dieta paleolítica: “a dieta nunca pode ser considerada o principal vector evolutivo, a alteração da dieta pode ser consequência da pressão evolutiva ambiental e até ser importante, contudo ela não é o início do processo. Quem se baseia nesses argumentos evolutivos, ou percebe pouco de biologia evolutiva ou construiu o conceito com base na fé pondo de parte a ciência”.

Pessoalmente não acho mal a um cientista ter fé, acreditar em algo pode ser uma força inspiradora e fazer romper barreiras. Se o Sr. Tesla não tivesse tido “fé” na corrente alternada, nunca teriam sido feitas as bobinas de Tesla e ainda andaríamos a reboque da corrente directa do Sr. Edison (com centenas de fios em cima da nossa cabeça). Costumo dizer às pessoas que em ciência, na grande maioria dos casos, descobre-se por acidente, publicando para parecer inteligente. Não pretendo com isto tirar mérito aos cientistas, apenas que se entenda que em ciência nem tudo é imaculado e que se cometem erros. Note-se também que os cientistas, como qualquer pessoa, detestam estar errados. 

Um verdadeiro cientista quando descobre que existe uma peça que não encaixa no puzzle, volta à estaca zero, e com humildade recomeça todo o processo. Se tivesse que escolher o principal vector da evolução da ciência, provavelmente seria o “estar errado”.

Voltando ao que penso da dieta paleolítica, apesar das limitações que de forma ligeira referenciei, contínuo a achar a melhor alternativa na imensa panóplia de dietas que existem.

Note-se neste âmbito um recente estudo feito por Ryberg et al. (1) que utilizou 10 mulheres pós-menopausa, com o objectivo de perceber se a dieta paleolítica poderia melhorar as concentrações lipídicas no fígado e músculo (concentrações intramiocelulares) ao mesmo tempo que poderia melhorar a sensibilidade à insulina. Após as 5 semanas do estudo, os autores chegaram à conclusão de que a ingesta calórica média foi reduzida em torno de 25% com uma perda de peso de 4,5kg. Naturalmente detectaram-se reduções ao nível do IMC, do índice da cintura/anca e do diâmetro sagital abdominal. 

A pressão diastólica também desceu (em média -7 mmHg), o mesmo se aplicando aos níveis da glucose em jejum, colesterol, triglicéridos, colesterol LDL/HDL, apolipoproteína B (ApoB) e apolipoproteína A1 (ApoA1) entre outros valores. Os níveis de sensibilidade à insulina não aumentaram (acredito que se fosse a sensibilidade à insulina no fígado veríamos grande alterações), isto porque a redução de triglicéridos no fígado foi de 49%, as concentrações intramiocelulares no músculo esquelético não sofreram também alterações.

Note-se que este estudo tem a limitação de ter uma amostra demasiado pequena (n=10) e de não ter sido utilizado grupo de controlo.

Mais um estudo experimental, que apesar da amostra pequena, revela factos muito interessantes desta dieta. A esteatose hepática não alcoólica está na etiologia de diversas patologias, já que o aumento da concentração de DAG (diacilglicerol) interfere com a acção da insulina no hepatócito (activação da proteína cinase C que fosforila o receptor no resíduo de serina, impedindo a cascada de transdução que leva à migração do GLUT-4 para a membrana celular). Se quiser saber um pouco mais sobre este mecanismo poderá ler o artigo: O TRATAMENTO DE DOENÇAS ENDÓCRINAS:INTERACÇÕES MEDICAMENTOSAS E IMPLICAÇÕES NUTRICIONAIS NO DOENTE DIABÉTICO.

É fácil dizer: “a amostra é pequena”, contudo conseguir financiamento para amostras de 50 pessoas está ao alcance de poucos na área da ciência, provavelmente com a excepção feita à indústria farmacêutica. Também me chateia que as pessoas que usam este argumento, são as mesmas que usam estudo observacionais para justificar as suas ideias e decisões.




Cumprimentos,
Filipe Teixeira
Director Of Nutrition-Tudor Bompa Institute International
The Tudor Bompa Institute, Portugal
Direcção Técnica-Body Temple, Lda


As opiniões aqui contidas apenas reflectem a opinião do autor e não necessáriamente da empresa Body Temple Lda/Tudor Bompa Institute. Consulte sempre o seu médico ou profissional de saúde antes de enveredar por qualquer suplemento, plano alimentar ou tratamento.



1. Ryberg M, Sandberg S, Mellberg C, Stegle O, Lindahl B, Larsson C, et al. A Palaeolithic-type diet causes strong tissue-specific effects on ectopic fat deposition in obese postmenopausal women. Journal of internal medicine. 2013 Jul;274(1):67–76.


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