sábado, 7 de setembro de 2013

Cap. IV – A acção da testosterona





De que forma actua a testosterona nos tecidos-alvo? Será que a testosterona realmente aumenta a massa muscular?





 


A acção fisiológica dos androgénios envolve os seus pré-receptores, receptores e pós receptores, num mecanismo que se centra quase exclusivamente na ligação da testosterona com o receptor androgénico. 

A activação dos pré-receptores acontece sobretudo pela sua conversão em metabolitos bioactivos potentes, como é o caso da dihidrotestosterona (DHT) e do estradiol. Nesta matéria, um enzima esteroidogénico, a 5-α-reductase, tem um papel preponderante. Contudo, não deveremos esquecer que este enzima subdivide-se em 2 isoenzimas: tipo 1 e tipo 2. Estes amplificam a conversão da testosterona num androgénio natural de elevada potência, a DHT (1). 

Apesar de serem oriundos de genes homólogos, estes isoenzimas apresentam-se em localizações cromossómicas diferentes, tendo propriedades bioquímicas distintas (2). A amplificação da conversão de testosterona em DHT é notória nos tecidos do tracto urogenital, nomeadamente na genitália externa e interna, sendo também bastante evidente ao nível da próstata pelos elevados níveis de 5-α-reductase tipo 2 (2). 

Os outros tecidos apresentam uma expressão mais elevada de 5-α-reductase tipo 1. Outra forma da testosterona activar o pré-receptor androgénico, acontece pela sua conversão em estradiol a partir do enzima aromatase (3), esta acção pluraliza a acção dos androgénios por via dos receptores estrogénicos (ERs). 


Testosterona e tecidos-alvo

Como já mencionei nos capítulos anteriores, a diferença da DHT para a testosterona prende-se apenas com a redução da dupla ligação do C4-C5 no anel A da estrutura do esteróide. Contudo, convém assinalar que a DHT não tem afinidade com o receptor estrogénico, enquanto a testosterona possui uma actividade biológica mais ampla pela sua possível acção no receptor estrogénico através do enzima aromatase

Esta característica permite à testosterona ter uma acção versátil e regulatória, dependendo esta do balanço da activação directa do receptor androgénico vs acção indirecta através da aromatase e do receptor estrogénico. A grande maioria dos tecidos varia nos seus limiares androgénicos, quer pela quantidade de testosterona, quer pela sua conversão em metabolitos bioactivos.


Mecanismo molecular da acção da testosterona
 Via clássica pelas proteínas de choque térmico (HSP) e via alternativa pela via do ras


Os efeitos da testosterona na massa muscular

A administração de testosterona leva a maiores ganhos de massa muscular nos membros superiores e inferiores quando comparando com a administração de injecções placebo (4). O grupo de intervenção com testosterona esteve sempre associado a maiores ganhos de força no supino plano e agachamento. Também parece evidente neste estudo, que a associação da testosterona com o exercício levou a maiores ganhos de massa magra (+9.5 ± 1.0%) e volume muscular (+14.7 ± 3.1% no tríceps e 14.1 ± 1.3% no quadríceps), do que apenas o grupo placebo ou o grupo de exercício. 

Em termos de força, os resultados do grupo testosterona + exercício também foram superiores a qualquer outro grupo (+24 ± 3% no supino plano e +39 ± 4% no agachamento).

Este estudo parece demonstrar que doses suprafisiológicas de testosterona quando combinadas com treino de força, aumentam a massa magra, o volume muscular e a força em homens saudáveis (4).


A acção anabólica da testosterona no músculo

Desabafo:
Que isto não sirva de desculpa para as administrações suprafisiológicas completamente tresloucadas que alguns atletas recreativos usam! Lembre-se: Um burro é sempre um burro, por mais “droga” que use não chega a cavalo. 

Querer equiparar-se a culturistas/atletas de topo, claramente dotados geneticamente e com uma disciplina que não se compara à sua, não é inteligente. Os resultados que os culturistas apresentam em palco, não dependem exclusivamente da utilização de drogas. Dependem sobretudo de treino e dieta extremas e de muito espírito de sacrifício. 

Se a obtenção de resultados dependesse apenas de hormonas e outros fármacos, bastaria “treinar” o glúteo para receber muitas injecções intramusculares. Reduzir os atletas “de forma” como os culturistas e outros, à utilização de hormonas, não é justo, é desrespeitoso e revela enorme ignorância. Não o faça sff!

Bom voltando aos estudos…
Outros estudos efectuados com ésteres de testosterona, em indivíduos com distrofia muscular (5,6) ou homens mais velhos (± 70 anos) sujeitos a cirurgia (7), também parecem indicar ganhos consistentes em massa magra (6).

De uma forma genérica os dados parecem mostrar, que quando a dieta e o estimulo do exercício são adequados, a acção da testosterona é amplificada. Também parece evidente que o treino de força aumenta o efeito dos androgénios no músculo.



Cumprimentos,
Filipe Teixeira
Director Of Nutrition-Tudor Bompa Institute International
The Tudor Bompa Institute, Portugal
Direcção Técnica-Body Temple, Lda



As opiniões aqui contidas apenas reflectem a opinião do autor e não necessáriamente da empresa Body Temple Lda/Tudor Bompa Institute. Consulte sempre o seu médico ou profissional de saúde antes de enveredar por qualquer suplemento, plano alimentar ou tratamento.



Imagens: Web


Bibliografia:
1. Wilson JD. The role of 5alpha-reduction in steroid hormone physiology. Reproduction, fertility, and development. 2001 Jan;13(7-8):673–8.

2. Russell DW, Wilson JD. Steroid 5 alpha-reductase: two genes/two enzymes. Annual review of biochemistry. 1994 Jan;63:25–61.

3. Simpson ER. Aromatase: biologic relevance of tissue-specific expression. Seminars in reproductive medicine. 2004 Feb;22(1):11–23.

4. Bhasin S, Storer TW, Berman N, Callegari C, Clevenger B, Phillips J, et al. The effects of supraphysiologic doses of testosterone on muscle size and strength in normal men. The New England journal of medicine. 1996 Jul 4;335(1):1–7.

5. Griggs RC, Halliday D, Kingston W, Moxley RT. Effect of testosterone on muscle protein synthesis in myotonic dystrophy. Annals of neurology. 1986 Nov;20(5):590–6.

6. Griggs RC, Pandya S, Florence JM, Brooke MH, Kingston W, Miller JP, et al. Randomized controlled trial of testosterone in myotonic dystrophy. Neurology. 1989 Feb;39(2 Pt 1):219–22.

7. Amory JK, Chansky HA, Chansky KL, Camuso MR, Hoey CT, Anawalt BD, et al. Preoperative supraphysiological testosterone in older men undergoing knee replacement surgery. Journal of the American Geriatrics Society. 2002 Oct;50(10):1698–701.

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