sábado, 17 de maio de 2014

Será que a proteína pode ser prejudicial para os seus ossos?




Apesar de fazer sentido teórico, poderá uma dieta hiperproteica efectivamente levar à desmineralização óssea? Será que a eventual acidose gerada por uma dieta hiperproteica poderá, dentro do sistema tampão de bicarbonatos, custar-nos precioso Ca2+ aos ossos? Tropecei neste estudo que poderá ser interessante a esclarecer esta questão, pelo menos de forma aguda.









Este estudo, publicado muito recentemente no conceituado American Journal Of Clinical Nutrition por Cao, et al. (1) tem as seguintes características:


Objectivo: Determinar se homeostase do Ca2+ e o seu turnover ósseo são afectados por dietas hiperproteicas, tanto numa fase de manutenção de peso como numa fase de restrição energética.

Tipo de estudo: Estudo experimental, aleatório, controlado. Foram seleccionados 32 homens e 7 mulheres (na casa dos 20 anos, n=39), que foram divididos em grupos e a quem foram atribuídas dietas com o seguinte protocolo de ingestão proteica:

0.8g/kg peso corporal p/dia (recomendações actuais)
1.6g/kg peso corporal p/dia (2x as recomendações actuais)
2.4g/kg peso corporal p/dia (3x as recomendações actuais)

O protocolo experimental foi cumprido durante 31 dias.


Os 10 dias de manutenção de peso (MP) precederam os 21 dias (3 semanas) de restrição energética (RE).

Na fase de RE as kcal foram reduzidas em cerca de 30% sendo posteriormente reduzidas em mais 10% (actividade física), perfazendo um total de -40% de energia em relação à MP. O nível de exercício físico destes indivíduos (pré-estudo) era essencialmente andar de bicicleta de forma recreativa e jogging na passadeira a baixa intensidade. Os mesmos foram encorajados a manter essas actividades durante o estudo, sendo o deficit de 10% atingido com uma actividade moderada de treino de resistência ao nível dos membros inferiores. 

Os restantes 30% foram essencialmente retirados dos hidratos de carbono da dieta, já que os níveis de proteína e gordura foram sempre mantidos constantes durante ambas as fases (com excepção dos diferentes protocolos proteicos entre grupos).

Algo que me agrada neste estudo, é o facto da ingestão alimentar ter sido controlada de perto por Nutricionistas e Dietistas estilo Ward (os participantes ingeriram todas as suas refeições nas instalações onde foi efectuado o estudo), e tudo ser controlado inclusive as “sobras” ao mais ínfimo detalhe. Por esta razão, acredito que a ingesta alimentar tenha sido aferida com bastante precisão. Durante a MP foram ingeridas cerca 2500 kcal e durante a fase de RE aproximadamente 800 kcal.

Outra questão que acho muito interessante no estudo, foi o cuidado em distribuir a ingesta proteica pré-estudo entre grupos de forma a corrigir as diferenças de base. Os grupos tinham de forma homogénea, indivíduos adaptados de igual forma a baixa/alta ingestão proteica. Pode parecer pouco importante, mas relembro que indivíduos com elevada ingestão proteica possuem super-regulação enzimática no que concerne ao metabolismo proteico (enzimas oxidativos), podendo assim interferir com os resultados do estudo. Este assunto já foi abordado num artigo anterior e poderá consultá-lo aqui.


A dieta forneceu em todos os casos 1000 mg de Ca2+ sendo ainda oferecido um multivitamínico a todos os participantes, que continha aproximadamente 160 mg. Ao jantar foram também atribuídos 400 IU de vitamina D, como forma de manter estes 2 nutrientes em igualdade não só entre grupos, mas também durante as diferentes fases do estudo. 2 dias antes do final da MP e da RE, foram aferidos os níveis de Ca2+ absorvido pelo sistema digestivo e vários marcadores de metabolismo ósseo.

Conclusões: o pH da urina era sempre mais baixo nos grupos com maior ingesta proteica, independentemente da fase em que se encontrassem. O que se torna bastante curioso é que a proteína não tem qualquer efeito na excreção (urinária) ou retenção de Ca2+. Foi também observada uma redução do IGF-1 durante a RE e um aumento da fosfatase ácida tartarato-resistente e da 25-hidroxivitamina D. Todos os restantes marcadores de turnover e densidade mineral-óssea, não foram afectados quer pela ingestão proteica, quer pela RE.


Citando os autores: “These data demonstrate that short-term consumption of high-protein diets does not disrupt calcium homeostasis and is not detrimental to skeletal integrity.”


2 artigos interessantes:  http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/22958314
                                   http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/22971730



Cumprimentos,
Filipe Teixeira
Director of Nutriton - Tudor Bompa Institute International
Direcção técnica - Body Temple, Lda


As opiniões aqui contidas apenas reflectem a opinião do autor e não necessáriamente da empresa Body Temple Lda/Tudor Bompa Institute. Consulte sempre o seu médico ou profissional de saúde antes de enveredar por qualquer suplemento, plano alimentar ou tratamento.




Bibliografia:


1. Cao JJ, Pasiakos SM, Margolis LM, Sauter ER, Whigham LD, McClung JP, et al. Calcium homeostasis and bone metabolic responses to high-protein diets during energy deficit in healthy young adults: a randomized controlled trial. Am J Clin Nutr. 2014 Feb;99(2):400–7.

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