terça-feira, 24 de junho de 2014

BCAA’s o que são? São úteis?



Esta sigla oriunda do inglês, que nada mais significa do que branched-chain amino acids, gera sempre alguma confusão entre as pessoas que me abordam (até no soletrar da sigla). Mas afinal o que são estes aminoácidos de cadeia ramificada? O que têm de tão especial?






Breve introdução à bioquímica dos aminoácidos

Os BCAA’s aminoácidos de cadeia ramificada, de cadeia média ou de cadeia hidrocarbonada lateral são efectivamente muito peculiares. Olhando um pouco para a bioquímica básica de uma aminoácido, sabemos que todos os aminoácidos partilham um carbono (C) α central aos quais se ligam um grupo carboxilo (COOH), um grupo amina (NH2), um hidrogénio (H) e um grupo lateral R que é variável e responsável pela identificação de cada aminoácido.




Existem aminoácidos que assim são designados, meramente por conveniência mas que contudo não o são. É o caso da prolina, que se quiséssemos ser muito rigorosos teríamos de designar quimicamente de iminoácido (pela ligação C=N). Este aminoácidos a pH fisiológico (7.35-7.45) tendem a se encontrar com carga 0 (pI=0, forma zwitteriónica), isto acontece porque o grupo carboxilo tende a ser desprotonado a este pH, formando carboxilato (COO-) e o grupo amina a ser protonado (NH3). 

Esta forma a pI=0 deve-se a características inerentes ao pKa dos grupos e irá influenciar a solubilidade do aminoácido (não irei desenvolver esta temática por razões óbvias). Importante perceber nesta matéria que quando dizemos aminoácido, o termo amino vem do NH2 (grupo amina) e o termo ácido vem do COOH (grupo carboxilo, característico dos ácidos carboxílicos).


Depois desta conversa toda afinal o que têm de especial estes BCAA’s?

Bom… antes de mais convém esclarecer que os BCAA’s são apenas 3 aminoácidos (leucina, Isoleucina e valina), por sinal 3 aminoácidos essenciais, o que significa que têm que ser obtidos obrigatoriamente a partir da dieta (1). Se olharmos para a imagem abaixo, percebemos que a sua cadeia lateral R é essencialmente constituída por C e H, apresentando nos 3 aminoácidos ramificação.




Estes aminoácidos (aa) pelas suas propriedades bioquímicas são primariamente oxidados no músculo-esquelético, não necessitando de metabolismo hepático (embora também possam ser assim metabolizados) (1). De forma simples, o nosso organismo pode utiliza-los para obter ATP de forma directa no músculo, algo que não é comum noutros aminoácidos. Alguns aa têm de ser convertidos em alanina, esta desaminada em piruvato (bla… bla…, descansem que não vou explicar o ciclo glucose-alanina). 

Então como podem ver estes BCAA’s são efectivamente “especiais” e parece que o nosso sistema muscular também “gosta” deles. Gosta tanto que se estima que 35% dos aminoácidos presentes nos músculos sejam BCAA’s (1).



Ok, são “especiais”… Mas quais os benefícios teóricos?

Existem 4 mecanismos teóricos que podem justificar a suplementação com BCAA’s:

-Redução da fadiga periférica: Acredita-se que o facto dos BCAA’s poderem ser utilizados como fonte de energia no músculo pode poupar glicogénio muscular. Os BCAA’s podem fornecer intermediários do metabolismo energético como a acetil CoA e a succinil CoA, preservando os níveis de glicogénio muscular (1,2).

-Redução da fadiga central: Os BCAA’s competem com os aminoácidos aromáticos (em especial o triptofano) pela passagem na barreira hematoencefálica (BHE). Esta barreira constituída por células endoteliais justapostas controla a passagem de moléculas entre a circulação sanguínea e o sistema nervoso central (SNC)(2). Acredita-se que a mobilização dos BCAA’s da BHE para o músculo (durante o exercício) altera o seu rácio, permitindo uma maior passagem de triptofano aumentando os níveis de serotonina (1,2). Pensa-se que a serotonina será responsável pela “fadiga central”.

-Aumento da síntese proteica: A leucina, e provavelmente também a isoleucina e a valina podem estimular a directamente a síntese proteica (1,2). Acredita-se que a leucina possa estimular o mTOR, que por sua vez estimulará a p70s6k, 4E-BP1 e eIF4G, sendo estas responsáveis pela síntese proteica muscular.

-Diminuição da imunossupressão resultante do treino: Acredita-se que possa ter acção em termos imunológicos, contudo os mecanismos são ainda pouco claros (2). Nesta matéria a glutamina será seguramente melhor escolha.



O que nos diz uma breve revisão de literatura? A suplementação com BCAA’s funciona?

Bom, como disse anteriormente existem benefícios teóricos com a suplementação com BCAA’s, contudo a evidência científica não se constrói com premissas teóricas. Da mesma forma que a plausibilidade biológica é obrigatória no estabelecimento da relação causa-efeito (um dos critérios de Hill), a mesma só por si não constitui ou prova causalidade. Assim, se fizermos uma breve revisão de literatura que conclusões tiramos?




  

Contudo a evidência não é unânime e alguns estudos mostram resultados contrários:




Mas que conclusões podemos retirar destes estudos contraditórios?


a) Vários estudos mostram que não existem benefícios imediatos na performance com a suplementação de BCAA’s.

b) Não deverá contudo ser descartada a possibilidade desses efeitos poderem surgir ao longo do tempo. Alguns destes estudos pecam por serem pouco prolongados no tempo.

c) A Suplementação com BCAA’s limita a redução de glutamina sérica, um importante aa na imunidade, geralmente reduzido pelo treino intenso.

Apesar de ser um estudo apenas feito em cobaias, os BCAA’s tal como o HMB, podem ser úteis na prevenção do catabolismo muscular causado pela imobilização ou diminuição da intensidade de treino.





Como tomar os BCAA’s?

De uma forma genérica 30 min antes do treino e/ou imediatamente após, conforme recomendações abaixo:







Contra-indicações, precauções e reacções adversas:

Os BCAA’s são um suplemento relativamente seguro dentro das doses recomendadas. Contudo existem limitações e precauções que devem ser respeitadas:





  
Na minha opinião, a suplementação com BCAA’s pode ser útil na redução da fadiga ou quando se pretende diminuir o aporte proteico num atleta por alguma razão particular. 

De uma forma genérica quem suplementa com Whey não justifica a suplementação extra com BCAA’s. O Whey já possui concentração de BCAA’s suficiente para estimular a síntese proteica, com o extra de conter γ-glutamil cisteína, importantíssima na síntese de glutationa.


Nota: Todos os slides aqui apresentados fazem parte do módulo de suplementação e Doping da certificação em Nutrição Desportiva (TBI-CSNE) do Tudor Bompa Institute International, sendo os seus direitos de cópia e reprodução reservados.





Cumprimentos,
Filipe Teixeira
Director Of Nutrition-Tudor Bompa Institute International
The Tudor Bompa Institute, Portugal
Direcção Técnica-Body Temple, Lda




As opiniões aqui contidas apenas reflectem a opinião do autor e não necessáriamente da empresa Body Temple Lda/Tudor Bompa Institute. Consulte sempre o seu médico ou profissional de saúde antes de enveredar por qualquer suplemento, plano alimentar ou tratamento.




Bibliografia:



1. Shimomura Y, Murakami T, Nakai N, Nagasaki M, Harris RA. Exercise promotes BCAA catabolism: effects of BCAA supplementation on skeletal muscle during exercise. J Nutr. 2004 Jun;134(6 Suppl):1583S–1587S.


2. Wolinsky I, Driskell J. Nutritional Ergogenic Aids. Boca Raton: CRC Press; 2004.



2 comentários:

  1. Obrigada pela exposição teórica e pela objetividade com que trata estes temas!
    Ao que parece, excelente profissional! :)

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