quinta-feira, 24 de julho de 2014

Suplementação e ciência - entrevista

Um aluno finalista da licenciatura de Bioquímica, solicitou-me uma pequena entrevista (para mim uma conversa) sobre suplementação e ciência. Neste post não existem referências científicas, apenas o que penso sobre determinadas temáticas. Simpaticamente o João transcreveu uma pequena parte da nossa conversa informal que poderão ler aqui.




O que acha da investigação científica actual?

Produzem-se centenas de artigos semanalmente, neste momento se pesquisássemos pela palavra “suplementos”, que é o tema desta nossa conversa, encontraríamos cerca de 50 mil resultados. No entanto quantidade não é sinonimo de qualidade, existe muita publicação de má qualidade, com erros metodológicos, estatísticos e por vezes mesmo estudos cujo desenho é completamente desadequado para os objectivos propostos. 

Quase tudo é publicado com base em médias, sendo estas calculadas muitas vezes sem outliers que podem perfeitamente ser os nossos clientes. Neste contexto a ciência é muitas vezes o melhor para a maioria e não o melhor para todos. O verdadeiro cientista quer provar que está errado e não o contrário. Faz lembrar a velha história dos cisnes brancos: Conta-se que um dia, um determinado indivíduo queria provar que todos os cisnes eram brancos, já que ele só conhecia cisnes brancos. Após viajar pelo mundo inteiro, contabilizou milhares de cisnes brancos e assim chegou à conclusão de que todos os cisnes eram brancos e publicou os resultados. O pior foi o dia em que alguém ligou a dizer que tinha um cisne preto no quintal… 

Resumindo: Deveria ter começado por procurar o que não conhecia e não o que conhecia. O primeiro passo em ciência é a procura do que foge à normalidade, e não o contrário. Quando um cientista produz ou procura artigos científicos para ter razão, na realidade deixa de ser cientista e passa a ser político. Os verdadeiros cientistas mudam de opinião e têm de estar preparados para após avançar 40 passos, recuar 39. Quem não se contenta ou interioriza este facto, viverá mergulhado em frustração e não deverá enveredar pela via científica.


Mas existem estudos mais importantes do que outros?

No que concerne à relação causa-efeito, sim. Em teoria o topo da investigação neste aspecto corresponderá aos estudos experimentais (aleatórios, controlados, duplamente-mascarados), às meta-análises e aos estudos de revisão sistemática. Nos estudos experimentais, questões como o tamanho da amostra (metodologia, etc.), poderão ser importantes para reduzir o viés, nas meta-análises é importante que existam critérios de inclusão dos estudos, bem definidos, à semelhança do que acontece com as revisões sistemáticas. Os estudos de Epidemiologia observacional não estabelecem relações de causalidade (embora isto seja muito discutível), excepto se cumprirem os 9 critérios de Hill, ou pelo menos um grande número desses critérios. 

É importante que se entenda que correlação não é causalidade. No que diz respeito aos estudos in vitro, regra geral não são feitos para estabelecer relações de causa-efeito. Muitas vezes são usadas nestes estudos concentrações suprafisiológicas de um determinado composto, na expectativa de conhecer um mecanismo em particular. Foi assim que descobrimos muitas das vias bioquímicas que hoje ensinamos, marcando proteínas, usando espectrofotómetros etc. No módulo de suplementos evito usar estudos in vitro, a razão é simples: Os clientes não são caixas de petri, em que podemos pipetar elevadas concentrações de compostos puros. Lembro-me de um estudo, em particular, com um extracto de beterraba em que se mostrava um particular efeito in vitro

Imediatamente a indústria fez uma enorme propaganda à beterraba, o que ninguém reparou é que para obter aquelas concentrações in vivo seria necessário ingerir um camião de beterrabas, algo que seria impossível na vida real. Um composto filtrado e purificado, pipetado in vitro está muito longe de um composto em concentrações mmol encontrado na natureza que ainda terá que ser degradado, absorvido, metabolizado etc. Por vezes assusta-me a falta de sentido crítico de algumas pessoas. No que diz respeito aos estudos em cobaias, é preciso ter sempre presente de que os animais não são humanos e como tal não existe total transposição dos efeitos encontrados. Em alguns casos os metabolismos são tão diferentes que não se pode de forma alguma extrapolar os resultados. É o caso da cafeína (por exemplo) em que não se deverão extrapolar resultados entre espécies (metabolismos hepáticos bem distintos). 

Outra questão é o facto dos animais serem submetidos a condições adversas que produzem um estímulo bem diferente daquilo que conhecemos na vida real. Em alguns casos o tipo de estímulo seria comparável a colocarmos humanos num campo de concentração, algo que embora aconteça no mundo actual, felizmente não é comum (espero eu!). No que diz respeito à relação causa-efeito os estudos in vitro e em cobaias são os que têm menos peso.


Então os estudos de Epidemiologia observacional são inúteis?

Claro que não. São uma ferramenta que pode e deve ser usada para o propósito que foi concebida. Repare, se pretendo estudar um efeito prolongado no tempo numa determinada população é completamente impossível efectuar um estudo experimental, primeiro porque os custos seriam incomportáveis, segundo porque ninguém se submeteria a tal. Assim quando pretendemos estudar efeitos crónicos, os estudos observacionais são extremamente importantes. 

Os estudos observacionais permitem também levantar hipóteses que deverão ser validadas por estudos experimentais. É importante dentro dos critérios de Hill, validar a plausibilidade biológica e estabelecer uma relação de temporalidade entre a exposição e o efeito. Uma correlação sem plausibilidade biológica ou sem se estabelecer relação de temporalidade, diz-nos relativamente pouco. Muitas vezes existe algum mal-estar entre a “core science” e a Epidemiologia observacional, há quem pense mesmo que são ciências incompatíveis, tudo pela “guerra” da relação causa-efeito. Na minha opinião a culpa de utilização “indevida” da Epidemiologia observacional, não se deve aos epidemiologistas mas sim a quem faz da Epidemiologia observacional o que ela não é.


Precisamos de suplementos alimentares?

Vou-lhe dar a resposta mais comum em ciência: Depende! Existem suplementos completamente inúteis e que realmente não se entende como continuam a ser comercializados. Não precisamos todos de suplementos em grandes doses, e mais seguramente não é melhor. Contudo ter a visão romântica de que obtemos tudo a partir da dieta, também não corresponde totalmente à verdade. A ideia que tenho é que é fácil dizer: “Os suplementos não fazem nada” e virar a página. Outro argumento que acho interessante é o facto de se dizer que os nossos antepassados pré-históricos não usavam suplementos. Claro que é verdade, mas o contexto é também totalmente diferente, repare:

-Temos em relação aos nossos antepassados um gasto energético total (GET) bem menor, fruto da elevada taxa de sedentarismo. É um facto que o nosso metabolismo basal não mudou assim tanto, mas o GET efectivamente mudou e muito.

-Hoje em dia dormimos em qualquer lado, a qualquer hora, submetidos à luz de forma biologicamente atípica. Trabalhamos por turnos, e habitamos zonas bem distintas das que eram outrora habitadas pelos nossos antepassados. As alterações nos padrões de sono são importantíssimas em várias situações, obesidade, cancro etc. O facto de habitarmos zonas do globo diferentes tem implicações na exposição à radiação UV e consequentemente na síntese da vitamina D (o sol não é só importante por causa da vitamina D, atenção!).

-Estamos pouco expostos ao sol quando comparamos com os nossos antepassados. Hoje em dia saímos de casa para a garagem, entramos no carro, entramos na garagem do trabalho e muitas vezes saímos de noite. Os nossos antepassados tinham maior exposição solar e provavelmente com menos roupa (não estou a incentivar o nudismo, nem tão pouco que as pessoas se exponham ao sol de forma irresponsável). :-)

-Stress. Hoje em dia somos escravos do tempo, de prazos, de resultados etc. Costumo dizer em tom de brincadeira que se o dinheiro comprasse tudo, comprava tempo. Somos hoje escravos de números: contamos o dinheiro, as horas de sono, o tempo de vida, etc. Toda esta pressão não existia nos nossos antepassados, eles limitavam-se a viver e não tinham um chefe a ligar de 5 em 5 minutos.

-Os nossos antepassados não fumavam e não bebiam. Existem hábitos que foram adquiridos recentemente estes são apenas dois deles (quando digo recentemente, refiro-me pós neolítico).

-Poluição, xenobióticos, PCB’s, PAH’s etc. Nada disto existia, fomos nós que criamos recentemente.

-Vários estudos mostram deficiência em nutrientes mesmo em populações de países desenvolvidos: Vitamina E, zinco, magnésio etc. Parece que atingimos as necessidades energéticas mas não as necessidades em nutrientes. Acredito que muitas destas deficiências se devam aos solos empobrecidos em selénio, iodo, zinco e magnésio. Os nossos antepassados provavelmente cultivavam em solos mais ricos.

-Os alimentos perdem nutrientes desde o momento da colheita. Os vegetais perdem cerca de 40% do seu teor em vitamina C desde o momento da colheita (por exemplo).

-A confecção dos alimentos também reduz o seu teor em nutrientes, até o tipo de utensílio usado para cozinhar altera o seu teor.

De uma forma geral existem diversos factores que alteram as necessidades, factores genéticos, tabagismo, poluição, exposição solar e exercício físico. Se existirem carências nutricionais que não consigam ser suprimidas pela dieta, os suplementos devem ser considerados. Não porque são moda ou porque as pessoas esperam resultados milagrosos deles. Devem ser aconselhados com pragmatismo e inteligência, por profissionais de saúde devidamente habilitados e não de forma leviana estilo “chapa 3”.


O facto de ocupar o cargo de director técnico de uma empresa de suplementos, não o inibe de ter estas opiniões?

Não, de todo. O trabalho que tenho desenvolvido na Body Temple passa pela aquisição de suplementos que cumpram os melhores padrões de qualidade e segurança e dou especial importância à frontalidade e honestidade com os nossos clientes. Esta é uma das razões pelas quais os funcionários da empresa não ganham à comissão – evitar a venda de suplementos de forma irracional em busca somente de lucro. 

Pior do que vender suplementos desadequados à realidade de um cliente é vender ilusões. A credibilidade não se compra, conquista-se com seriedade. Temos alguns suplementos à venda, que claramente carecem de fundamentação científica, isto só acontece por pressão de alguns clientes. Sendo uma empresa logicamente existe também o interesse financeiro, seria hipócrita se não o dissesse. Nunca senti, por parte da administração da empresa, qualquer tipo de pressão para me refrear no que diz respeito às minhas opiniões, antes pelo contrário.


Que suplementos efectivamente funcionam?

Nessa matéria sugiro a Certificação em Nutrição Desportiva TBI/WellXProschool/Nutriscience como forma de obter essa resposta, ou pelo menos o módulo de Suplementação e Doping. São 8 h a me ouvir falar sobre suplementos, até eu fico farto de me ouvir, imagine os formandos :-). De qualquer das formas pesquisando no blogue da Body Temple, encontrará a minha opinião…


Um suplemento que não funcione?

O Tribulus terrestris como pró-hormonal. Existem algumas evidências que possa aumentar a libido mas não a produção endógena de testosterona. O estudo que conheço em relação ao aumento da libido foi efectuado em javalis por isso… :-)


Em relação ao sono, quantas horas recomendaria para uma saúde óptima?

Não creio que se conheça em definitivo uma resposta para essa pergunta. Costumo dizer em tom de brincadeira que devemos dormir o máximo possível, desde que não leve ao divórcio ou ao despedimento. :-)


No que concerne à próxima Certificação em Nutrição Desportiva, o que vamos ter de novo?

Tentarei incluir uma secção com suplementação por objectivo, mostrando de forma sistemática/protocolar como atingi-lo. Será a parte do “como” em complementaridade ao “o quê”. Nos restantes módulos teremos também novidades, já que toda a equipa de formadores é extremamente dedicada e atenta à mais recente evidência científica. Tenho o prazer de partilhar a docência desta certificação com 2 formadores de excelência com os quais também aprendo muito. Apesar de termos formações diferentes (eu, o Pedro Bastos e o Sérgio Veloso) penso que nos complementamos bastante bem e os formandos também saem a ganhar. É importante que quem ensina, não se esqueça que ensinar é também um acto de aprendizagem, e que é preciso simplificar sem tornar simplório.


Depois da Bioquímica, Ciências Biomédicas e Ciências Da Nutrição o que se segue?

O projecto de investigação a começar em Outubro na FCT-UNL. Terminado esse objectivo tentarei o Doutoramento na área das Ciências Da Nutrição ou da Bioquímica. Tenho algumas hipóteses em aberto no estrangeiro, mas neste momento não irei gastar ATP com isso. Não é uma prioridade.




Cumprimentos,
Filipe Teixeira
Director Of Nutrition-Tudor Bompa Institute International
The Tudor Bompa Institute, Portugal
Direcção Técnica-Body Temple, Lda




As opiniões aqui contidas apenas reflectem a opinião do autor e não necessáriamente da empresa Body Temple Lda/Tudor Bompa Institute. Consulte sempre o seu médico ou profissional de saúde antes de enveredar por qualquer suplemento, plano alimentar ou tratamento.




2 comentários:

  1. Muitas verdades são aqui ditas. Mais do que um artigo esta entrevista mostra a frontalidade do Filipe Teixeira, sem espinhas. Na minha opinião uma das "mentes brilhantes" da Nutrição do nosso país. Gostei muito! Continua por favor com essa atitude.

    Cátia Zeferino

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  2. Muito obrigado Filipe pela disponibilidade e ajuda. Era capaz de falar consigo durante horas. Grande abraço! João Lázaro

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