sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Whey hidrolisado – Uma breve revisão da literatura





Será que o whey hidrolisado apresenta realmente vantagens em relação ao “comum” whey não hidrolisado? Esta foi a conclusão a que cheguei e a linha de raciocínio utilizado. Espero que vos seja útil!









Se há pergunta que recebo numa base quase diária é esta: “É melhor o whey hidrolisado ou o não hidrolisado?”. Confesso-vos que durante algum tempo eu próprio fiquei na dúvida e não tinha uma resposta concreta para dar. Assim, decidi dedicar algum tempo a esta temática e ler alguns estudos que entendo terem qualidade para nos darem algumas "dicas".


O que é o whey hidrolisado (WPH)?

Quando ingerimos um alimento e olhamos estritamente para as proteínas, temos de ter em conta que, apesar da mastigação na boca facilitar a exposição dos nutrientes a vários enzimas, em termos de proteínas quase nada acontece na boca. No estômago o pH ácido altera a conformação das proteínas facilitando a acção de um enzima que inicia o processo de hidrólise das mesmas, a pepsina. 

Esta digestão é apenas parcial, resultando da mesma alguns péptidos (aglomerados de aminoácidos de PM até 10 000 Da), proteínas eventualmente de menor PM (peso molecular) e eventualmente alguns aminoácidos (aa) livres. No intestino esta digestão irá continuar até que resultem apenas oligopéptidos (2-8 aminoácidos em cadeia) e eventualmente com a extensão da hidrólise di, tri, tetrapéptidos e em menor quantidade aminoácidos livres. A hidrólise no contexto das proteínas não é mais do que a quebra da ligação peptídica (quimicamente uma amida) de uma proteína ou péptido por via ácida ou enzimática.





É uma “hidro”=água “lise”=degradação porque como o próprio nome indica ocorre com formação de água. A clivagem da ligação peptídica forma espontaneamente água a partir de 2H + O. No que concerne ao whey o que se faz é mimetizar este processo usando enzimas digestivos, clivando previamente as proteínas do soro em péptidos. Esqueçam a hidrólise ácida, porque a mesma não é útil no WPH (o sabor seria intragável no mínimo).

Portanto todo o processo de digestão tem como objectivo hidrolisar enzimaticamente (com um pouco de ajuda do ácido gástrico) as proteínas em aminoácidos livres e di, tri e tetrapéptidos. Sabemos que os aminoácidos livres são maioritariamente absorvidos no enterócito em co-transporte com o Na+ (SGLT), e os péptidos a partir de canais proteicos designados de pepTs (nomeadamente pepT1 e pepT2) usando H+ em simporte. O primeiro transporte implica gasto de ATP pela utilização da bomba Na+/K+.






É mais importante a acção dos pepT’s do que a dos SGLT no que diz respeito à absorção de aminoácidos (1). Os hidrolisados são já usados em fórmulas infantis, como forma de reduzir a resposta alergénica às proteínas lácteas pela acção da hidrólise junto dos epítopos (determinantes antigénicos). A questão que se coloca, porém, é a seguinte: Será que apresentam vantagens em relação a frontes proteicas não hidrolisadas no que diz respeito aos atletas?



O que diz a evidência científica?

Teorizou-se que a hidrólise prévia das proteínas poderia aumentar a sua taxa de absorção, em relação à proteína integral (ou intacta) (2). Vários estudos investigaram a relação do grau de hidrólise em relação à absorção e resposta hormonal (3–8). De uma forma geral a investigação parece apontar para o facto das proteínas serem absorvidas mais rapidamente sob a forma de di e tripéptidos do que quando consumidas intactas ou sob a forma de aa livres (3). Parece também evidente que a resposta hormonal, despoletada por esta absorção mais rápida propicia um ambiente anabólico mais favorável (4–6).

Calbet et al. (5) investigaram o pico de aa e resposta insulínica após o consumo de WPH, leite (proteína integral do leite) (MP), proteína hidrolisada de ervilha (PPH) e um placebo de glucose (PG). Todas as fontes proteicas foram consumidas em iguais quantidades e comparadas ao PG. Cada solução contendo proteína continha 15 g de glucose (igual ao placebo) e respectivamente WPH,MP ou PPH (30 g). Note-se que o leite tinha ainda a vantagem de ter os hidratos de carbono nativos como extra, ou seja a lactose. 

A investigação mostrou que o WPH elevou com maior frequência os níveis plasmáticos de aa do que o leite, PPH e o PG. Verificou-se uma sinergia entre a ingestão dos hidrolisados (whey e ervilha) e a glucose, na elevação dos níveis de insulina. Em termos insulínicos os hidrolisados promoveram um aumento 2 x maior do que o MP e 4 x maior que o PG. A correlação entre os aa plasmáticos e a resposta insulínica aos hidrolisados foi de 0.80. Contudo este estudo tem a limitação de comparar a MP com o WPH. O MP é composto por 80% de caseína que detém um teor mais baixo de leucina. Sabemos actualmente que a leucina pode ter actividade insulinotrópica pela activação do GDH (glutamato desidrogenase), promovendo a libertação de insulina nos ilhéus pancreáticos.

Outro estudo de Morifuji et al. (3) investigou os efeitos de 12.5 g de whey hidrolisado (WPH) ou não hidrolisado vs a mesma quantidade de soja hidrolisada ou não hidrolisada. Neste estudo foram aferidos os níveis de aminoácidos essenciais, BCAA’s e insulina. Verificaram-se as seguintes respostas em termos de concentração plasmática de aa: WPH > whey não hidrolisado > soja hidrolisada > soja não hidrolisada. 

Contudo este estudo tem a limitação de ter uma amostra muito baixa (n=10) o que nos obriga a analisar os resultados com alguma cautela. Não deixa também de ser curioso, o facto destes dados entrarem em conflito com os dados publicados por Calbet et al. (5), já que este grupo de investigadores não encontrou diferenças na concentração plasmática de aa/BCAA’s (aminoácidos de cadeia ramificada) no grupo do whey hidrolisado vs grupo do whey não hidrolisado. 

No entanto foram encontradas diferenças entra a caseína hidrolisada vs caseína não hidrolisada, com maior concentração plasmática no primeiro grupo. Note-se, porém, que em ambos os estudos parece haver concordância no que diz respeito aos hidrolisados terem maior capacidade de estimular as incretinas, nomeadamente o GIP (glucose-dependent insulinotropic polypeptide).
  
Mais recentemente Buckley et al. (7) demonstraram, num estudo com 28 indivíduos do sexo masculino sedentários, que uma dose de 30 g de WPH promovia melhor resposta em termos de recuperação muscular em relação ao exercício excêntrico, do que em relação ao grupo placebo ou à mesma fórmula de soro não hidrolisada. De forma surpreendente, os resultados em termos de recuperação muscular em relação ao WPH foram obtidos ao fim de 6 h, enquanto no placebo e no whey não hidrolisado esses resultados só foram verificados ao fim de 24 h.





Pensa-se que esta melhor recuperação se deve a uma melhor reposição dos níveis de glicogénio. Esta hipótese parece ser corroborada por Morifuji et al., tendo este grupo de investigadores demonstrado que em cobaias (ratos Dawley) o WPH tinha maior capacidade de repor os níveis de glicogénio muscular do que os BCAA’s de forma isolada (9). Um dos mecanismos propostos aponta para a maior fosforilação do Akt (proteína cinase B) e da proteína cinase C (PKC) na cascata de sinalização da insulina.





Lockwood na sua tese de Doutoramento também investigou os efeitos do WPH (8). Neste trabalho os indivíduos consumiram durante 8 semanas 30 g de WPH ou outras 2 formas de concentrado de whey não hidrolisado. O protocolo de treino usado baseou-se em treino contra resistência linear. As conclusões retiradas foram as seguintes: em termos de massa magra e força não se verificarem diferenças entre os grupos, no entanto apenas se verificou redução da massa gorda no grupo do WPH.


Conclusões:

-O hidrolisado parece ter vantagens no aumento da concentração de BCAA’s, despoletando maior síntese proteica. Para este desiderato não são necessárias doses elevadas de WPH, bastando apenas 15 g. Apesar do preço mais elevado, o facto dos efeitos ergogénicos surgirem a cerca de 50% da dose comum pode diluir o valor acrescentado.

-Em doses mais elevadas (30 g) o WPH não eleva a concentração plasmática de BCAA’s ou promove maior ganho de massa magra em relação a outras fontes de whey não hidrolisado.

-O WPH parece despoletar uma maior resposta insulínica e também de outras moléculas importantes na cascata sinalizadora da insulina (Akt e PKC). Esta capacidade de estimular o Akt e o PKC parece ser fundamental na reposição dos níveis de glicogénio.

-Existe uma relação bem conhecida entre o declínio dos níveis de glicogénio e a fadiga. Assim, podemos deduzir e justificar os melhores níveis de recuperação reportados em alguns trabalhos científicos, por esta via.

-O WPH também parece mais eficaz na redução da massa gorda por via das incretinas, nomeadamente o GIP. Este aparenta ter um papel importante no metabolismo lipídico, pelo que o consumo de WPH poderá ser benéfico para atletas que pretendam reduzir o % de massa gorda.

A grande questão que aqui se coloca, prende-se com a relação custo/benefício em torno do WPH. É verdade que os estudos mostram algumas vantagens em relação a fontes não hidrolisadas, contudo a questão é… Será que a diferença de efeito justifica o seu uso e preço acrescido? Acredito que para um atleta recreativo comum, não se justifica o uso do WPH. O seu preço, e mesmo o sabor mais amargo gerado pela hidrólise, tornam-se factores que desencorajam a maioria dos clientes. 

Se me colocasse no lugar do “cliente comum” provavelmente não adquiria este produto, pelo menos enquanto os preços fossem tão elevados. Agora, se estivermos a falar de atletas profissionais a conversa já é totalmente diferente. Nestes tudo conta até o mais ínfimo detalhe, aqui provavelmente já recomendaria o uso WPH. É preciso ter em conta que os atletas profissionais são muito diferentes da média e que nos estudos científicos se publicam sobretudo médias. 

Se olhássemos para uma dispersão de dados num gráfico, estes atletas provavelmente seriam os outliers (valor atípico em termos estatísticos)… e ainda bem! É por isso que são profissionais e de elite, na maior parte dos casos.



Cumprimentos,
Filipe Teixeira
Director Of Nutrition-Tudor Bompa Institute International
The Tudor Bompa Institute, Portugal
Direcção Técnica-Body Temple, Lda





As opiniões aqui contidas apenas reflectem a opinião do autor e não necessáriamente da empresa Body Temple Lda/Tudor Bompa Institute. Consulte sempre o seu médico ou profissional de saúde antes de enveredar por qualquer suplemento, plano alimentar ou tratamento.





1.           Frayn KN. Metabolic regulation - A human perspective. 3rd ed. Oxford, UK: Wiley-Blackwell; 2010.

2.           Silk DB, Grimble GK, Rees RG. Protein digestion and amino acid and peptide absorption. Proc Nutr Soc. 1985 Feb;44(1):63–72.

3.           Morifuji M, Ishizaka M, Baba S, Fukuda K, Matsumoto H, Koga J, et al. Comparison of different sources and degrees of hydrolysis of dietary protein: effect on plasma amino acids, dipeptides, and insulin responses in human subjects. J Agric Food Chem. 2010 Aug 11;58(15):8788–97.

4.           Thomson RL, Buckley JD. Protein hydrolysates and tissue repair. Nutr Res Rev. 2011 Dec;24(2):191–7.

5.           Calbet JAL, MacLean DA. Plasma glucagon and insulin responses depend on the rate of appearance of amino acids after ingestion of different protein solutions in humans. J Nutr. 2002 Aug;132(8):2174–82.

6.           Calbet JAL, Holst JJ. Gastric emptying, gastric secretion and enterogastrone response after administration of milk proteins or their peptide hydrolysates in humans. Eur J Nutr. 2004 Jun;43(3):127–39.

7.           Buckley JD, Thomson RL, Coates AM, Howe PRC, DeNichilo MO, Rowney MK. Supplementation with a whey protein hydrolysate enhances recovery of muscle force-generating capacity following eccentric exercise. J Sci Med Sport. 2010 Jan;13(1):178–81.

8.           Lockwood C. Effect of whey protein quality on physiological response to chronic resistance exercise in trained men: A double-blind, placebo-controlled, randomized trial. The University of Oklahoma; 2010.

9.           Morifuji M, Kanda A, Koga J, Kawanaka K, Higuchi M. Post-exercise carbohydrate plus whey protein hydrolysates supplementation increases skeletal muscle glycogen level in rats. Amino Acids. 2010 Apr;38(4):1109–15.

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