segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Uso e abuso de esteróides anabolisantes




O uso e abuso de esteróides anabolisantes é um assunto sempre controverso. Quais os efeitos secundários do abuso destas substâncias? Existem consequências? O que diz a literatura?!








A utilização de esteróides anabolisantes sem receita médica (com excepção de ensaios clínicos devidamente aprovados) constitui a principal forma de uso indevido deste tipo de hormonas. Quando utilizados para fins não clínicos, em doses superiores às recomendadas para fins terapêuticos geralmente falamos de abuso. Note-se que a prescrição indevida deste tipo de fármaco pode também ocorrer em contexto clínico, sobretudo quando usados para tratar infertilidade ou disfunção sexual na ausência de hipogonadismo link, como tónico para homens no tratamento da andropausa link ou administração em mulheres link

Uma das principais razões para o abuso destas substâncias prende-se com a crença de que podem combater o envelhecimento mantendo a virilidade e massa muscular nos seus utilizadores.


Fonte: Web


Pensa-se que o abuso deste tipo de substâncias tenha começado por volta de 1950, durante a Guerra Fria, onde os países da Europa de leste desenvolveram programas específicos utilizando estes fármacos com o objectivo de dominarem o cenário desportivo internacional (seria também uma forma de propaganda política) link. Num curto período de tempo o uso de esteróides anabolisantes tornou-se endémico, sendo utilizados também por atletas recreativos com objectivos meramente estéticos. Acredita-se que os primeiros desportos a utilizarem este tipo de substâncias terão sidos os desportos de potência e o Bodybuilding, sobretudo pela capacidade reportada pelos atletas no que diz respeito a estas substâncias poderem aumentar o performance e promoverem a melhoria da composição corporal. 

Ao mesmo tempo que o seu uso aumentava entre atletas recreativos de países desenvolvidos (ou em vias de desenvolvimento) link, uma industria underground proliferava promovendo conceitos que envolviam a combinação de diversas substâncias (stacking), variando estas em dose e em ordem ao tempo. Este conceito seria consolidado no planeamento total sistemático da administração das substâncias (stacking, doses por dia ou semana, duração total), em função do objectivo pretendido (designado empiricamente como “ciclo”). 


Fonte: Web



Durante muito tempo a ciência considerou estes efeitos reportados pelos atletas como produto de efeito placebo link. Este facto viria a ser alterado com o primeiro estudo aleatório, controlado com grupo placebo a demonstrar que doses suprafisiológicas de testosterona (600 mg de enantato de testosterona p/semana, durante 10 semanas) aumentavam significativamente a massa muscular e a força link. Em outros estudos bem controlados, tanto em homens eugonadais jovens link ou idosos link, a testosterona mostra uma relação linear entre dose/volume muscular e força, sobretudo quando aplicada para além das concentrações fisiológicas. 

Existem também aumentos de natureza dose-dependente, em relação à sua administração na eritropoese link e humor link, podendo a primeira contribuir para os seus efeitos miotróficos. Note-se que ao contrário destes estudos que mostram efeitos na massa muscular e força, mesmo em homens eugonadais, os seus efeitos no performance são menos claros, sobretudo quando fora do contexto dos desportos de potência/força máxima. 



Fonte: Web



A consequência do uso prolongado destas substâncias em doses suprafisiológicas permanece até ao momento ainda pouco clara, sobretudo no que diz respeito a doença cardiovascular, doença da próstata ou sequelas de natureza psiquiátrica link. No que diz respeito à prevalência do uso destas substâncias (fora do contexto clínico) os dados (em escolas secundárias) parecem apontar para 66/1000 adolescentes nos EUA link, 58/1000 na Suécia link, 32/1000 na Austrália link, 28/1000 na Africa do Sul link, com um marcada menor prevalência entre os indivíduos do sexo feminino. Note-se que a validade deste tipo de inquéritos (self report) tem sido posta em causa, acreditando-se que subestima o verdadeiro uso destas substâncias pelo menos entre halterofilistas  link e reclusos link, link

Os utilizadores deste tipo de substâncias obtêm-nas de diversas fontes, podendo estas ser de origem veterinária, laboratórios underground (sendo elevado o risco da presença de substâncias inertes ou contaminações) e uma pequena proporção obtida por via clínica. Tendo em conta o crescente uso destas substâncias, a World AntiDoping Agency (WADA) desenvolveu vários métodos altamente sensíveis a metabolitos urinários, destacando-se a utilização da cromatografia gasosa em combinação com a detecção por espectrometria de massa (GC-MS).

Fonte: Web


Se por um lado estes métodos de detecção viriam a desencorajar a utilização destas substâncias pelas pesadas sanções aplicadas aos atletas, levou por outro lado a que a indústria underground iniciasse a síntese de novos esteróides com objectivo exclusivo de aumentar a performance evitando ao mesmo tempo a detecção pelo controlo. São exemplos desta situação os designer steroids norboletona link, tetrahidrogestrinona link e dimetiltestosterona link, criados apenas para objectivos desportivos e sem qualquer uso autorizado para fins terapêuticos. Da mesma forma que a indústria underground evoluiu assim evoluíram também os métodos de controlo, com as bibliotecas dos espectrómetros de massa a serem actualizadas com os metabolitos correspondentes a estes designer steroids. Apesar do escândalo inerente ao uso de tetrahidrogestrinona (turinabol pelos laboratório BALCO) acredita-se que o uso deste designer steroid não tenha sido tão grande como se pensaria inicialmente link. Apesar de todas as medidas legislativas e de controlo antidoping, a diminuição do uso destas substâncias parece ainda estar longe de diminuir link, link.


Fonte: Web


Consequências do abuso de esteróides anabolisantes (androgénios)


O uso destas substâncias está associada à supressão reversível da espermatogénese e fertilidade link, linklink, link, link, ginecomastia link, hepatoxicidade sobretudo em compostos 17-α-alquilados (compostos com um grupo metilo ou etilo na posição 17-α ou seja do carbono 17 que se localiza no anel D) link, HIV e hepatite pela eventual partilha de seringas link, link, link, link, link, abcessos locais e sépsis por incumprimento dos protocolos de higiene link, link, lesões associadas ao sobretreino link, rabdomiólise link, síndrome do aprisionamento da artéria poplítea link, trombose venosa profunda e embolia pulmonar link, hemorragia cerebral link, convulsões link assim como alterações de humor e comportamentais link, link.


Fonte: Web


Apesar das possíveis consequências do uso destas substâncias no sistema cardiovascular link, link, link os estudos não são claros, havendo contudo alguns indícios na doença da próstata (hiperplasia prostática) link, link. É bem plausível, porém, que a ausência/fraca evidência em relação a estas doenças se deva ao facto dos utilizadores destas substâncias não o reportarem aos clínicos. Poucos estudos prospectivos e de natureza clínica foram efectuados no que diz respeito à doença cardiovascular link, link ou à doença da próstata linklink, link  em relação à utilização de elevadas doses de androgénios. A grande maioria dos estudos é de natureza não aleatória e puramente observacional em que se comparam utilizadores vs não utilizadores link, link, link, link, link. Este tipo de estudos gera inúmeros viés (de participação etc.) não podendo estabelecer relação causa-efeito.

Existem autores que argumentam o facto da esperança média de vida ser maior entre atletas de elite pela redução de doença cardiovascular link, link, acontecendo o contrário nos atletas de potência e força (supostamente os maiores utilizadores destas substâncias) com maior probabilidade de morte prematura (cerca de 4x) a partir de suicídio, doença cardiovascular, falha hepática e linfoma link. No entanto atribuir este aumento de OR a um possível abuso de esteróides por estes atletas parece pouco científico e lógico até porque as evidências mais recentes mostram uso displicente destas substâncias em desportos de endurance link.

Parece contudo claro que os esteróides anabolisantes não provocam dependência física linklink e que a grande maioria dos utilizadores descontinua o seu uso a médio/longo prazo. Após a utilização e interrupção de elevadas doses de androgénios, a recuperação do eixo hipotálamo-hipófise-testículo (HHT) pode levar de meses até 2 anos link, levando a consequente deficiência de gonadotrofinas link, link, link. Os sintomas passam por oligospermia/zoospermia e infertilidade, usando muitos atletas hGC (gonadotrofina coriónica humana) podendo esta em certa medida estimular a espermatogénese link, link como a testosterona exógena.

No entanto o uso incorrecto e continuado de hGC pode atrasar a recuperação do eixo HHT perpetuando de forma cíclica o abuso destas substâncias link. Alguns autores sugerem que a dificuldade da reposição do eixo HHT se prende com a sua supressão entre o hipotálamo e a hipófise, lembrando a reversibilidade incompleta pela supressão da GnRH (hormona libertadora de gonadotrofinas) nos tratamentos mais agressivos ao cancro da próstata link, link.



Fonte: Web


Apesar de alguns programas de natureza social terem mostrado alguma eficácia na redução do uso destas substâncias entre os jovens link, ainda existe um longo caminho a percorrer no que diz respeito à consciencialização dos perigos inerentes à utilização destas substâncias fora da esfera clínica.

Deixo só aqui uma pequena nota no que diz respeito à famosa expressão usada por algumas pessoas defensoras da utilização dos esteróides anabolisantes no que diz respeito à sua inocuidade: “show me the bodies, you can’t prove any death related to steroid abuse”, pois muito bem a expressão é engraçada sobretudo porque busca toxicidade aguda na utilização destas substâncias, não sendo de todo o caso. A toxicidade é sobretudo crónica o que significa que surgirá a partir do uso prolongado pelo tempo, dependendo também obviamente das doses usadas.         


Cumprimentos,
Filipe Teixeira
Director Of Nutrition-Tudor Bompa Institute International
The Tudor Bompa Institute, Portugal
Direcção Técnica-Body Temple, Lda





As opiniões aqui contidas apenas reflectem a opinião do autor e não necessáriamente da empresa Body Temple Lda/Tudor Bompa Institute. Consulte sempre o seu médico ou profissional de saúde antes de enveredar por qualquer suplemento, plano alimentar ou tratamento

1 comentário:

  1. No que diz respeito a conhecimentos sobre hormonas o Filipe Teixeira é provavelmente um dos maiores especialistas em Portugal. Não sei mesmo se tecnicamente não será o melhor que temos. Assisti a algumas formações com ele e o seu conhecimento técnico é simplesmente assombroso (destaco também a sua capacidade de comunicação). Continua por favor o trabalho que desenvolves nas formações e no blogue, é importante que saibas que o teu trabalho é reconhecido e apreciado. Bjs Cátia Santos

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