segunda-feira, 16 de março de 2015

Será uma boa opção substituir a caseína pelo whey na nutrição entérica de doentes críticos?





Este grupo de investigadores da Universidade Federal de Mato Grosso tentou precisamente obter resposta a esta pergunta. Será que o whey é superior à caseína também em contexto clínico?









Decidi de forma simples efectuar um resumo do artigo, espero que possa ajudar à sua compreensão.

de Aguilar-Nascimento JE, Prado Silveira BR, Dock-Nascimento DB. Early enteral nutrition with whey protein or casein in elderly patients with acute ischemic stroke: a double-blind randomized trial. Nutrition. 2011 May;27(4):440–4. 



Introdução:


Existe uma grande prevalência de malnutrição nos doentes geriátricos que são internados nas unidades de cuidados intensivos (UCI), sendo a administração de nutrição entérica fundamental para diminuir o risco de morte prematura (1,2). O papel das proteínas na prevenção da sarcopénia assume papel de particular destaque, sobretudo quando possuem elevado teor de leucina como o whey (1–3). O whey é também rico no aminoácido sulfurado cisteína sendo este importante na síntese de glutationa e respectivo sistema enzimático antioxidante (4,5).

Por outro lado algumas fracções proteicas presentes no whey podem apresentar actividade antioxidante per se sobretudo pela presença de α-lactalbumina e lactoferrina na inibição de vários mediadores da inflamação, em particular a interleucina-6 (IL-6) (6). A ausência de um estudo que avaliasse os efeitos da suplementação com whey, em idosos internados nas UCI após acidente vascular cerebral levou a que os autores realizassem este trabalho. Nele foram avaliados os efeitos da sua suplementação nos marcadores inflamatórios e nos níveis de glutationa.


Materiais & métodos:


A amostra consistiu em 31 adultos idosos (> 65 anos), 12 homens e 19 mulheres com idade média de 74 anos. Todos teriam sido admitidos na UCI com início imediato de alimentação nasogástrica (35 kcal/kg das quais 1,2 g/kg.dia-1 de proteína). Foram divididos, após aleatorização em 2 grupos com alimentações distintas: 1 grupo consistia na ingestão de uma fonte proteica exclusivamente de caseína hidrolisada (CAS) (n=16) e a outro de whey (WP) (n=15) durante 5 dias. As dietas foram ajustadas para serem isocalóricas e isoproteicas, tendo os restantes macronutrientes sido mantidos isocalóricos dentro do possível em ambas as dietas.

Foram estabelecidos vários critérios de inclusão de forma a se eliminarem factores de confundimento em relação às variáveis que se pretenderam estudar. Os doentes deveriam ter idade > 65 anos, ter sido admitidos por AVC isquémico agudo e ter início de alimentação entérica até 48 h após admissão assim como um score APACHE entre 8 e 30. Foram também seleccionados critérios eliminatórios como, mudança de diagnóstico, HIV-SIDA etc. A alimentação entérica foi administrada a 20 mL/h de forma a garantir a alimentação total ao fim de 72 h. O estudo tinha como principal objectivo avaliar primariamente a glutationa peroxidase (Gpx), proteína C reactiva (CRP) e interleucina-6 (IL-6). Outros marcadores também foram avaliados de forma secundária como a glicémia, lactato, IL-6, colesterol, triglicéridos entre outros.




A análise estatística foi efectuada a partir do software SPSS® (Statistical Package for Social Sciences) tendo-se estabelecido como significativo um valor de p<0,05 (IC95). Os resultados foram apresentados como média do desvio padrão. A amostra foi calculada a partir de uma potência de 80 % (erro tipo II).


Resultados:


Foram excluídos 6 doentes do estudo devido a diversos critérios (entre os quais mudança de diagnóstico etc.), 5 no grupo WP e 1 no grupo CAS. Ao todo 25 doentes completaram o estudo, 15 no grupo da caseína (CAS) e 10 no grupo do whey (WP). A estada no hospital não foi diferente entre ambos os grupos. No que diz respeito ao colesterol, glicémia, lactato e CRP as diferenças não foram estatisticamente significativas, notando-se porém correlação positiva entre a CRP e a IL-6 em relação à mortalidade. No que diz respeito à redução da IL-6 e à elevação da Gpx apenas foram notadas diferenças significativas no grupo da WP.











Conclusão:


A suplementação com whey parece ter efeitos benéficos na modulação da resposta inflamatória em doentes geriátricos no quadro clínico já descrito. De uma forma geral, apesar dos benefícios não serem claros em relação à albumina sérica os doentes que foram alimentados com whey apesentarem maiores benefícios clínicos. A elevação da glutationa nestes doentes é da maior importância pela reconhecida capacidade deste antioxidante na neutralização de espécies reactivas de oxigénio (7). Os resultados deste estudo vêm confirmar os resultados de estudos anteriores no HIV-SIDA (8) e prevenção da sarcopénia (9).

Apesar dos resultados positivos os autores reconhecem as limitações do estudo. Este foi o primeiro estudo a avaliar os efeitos do whey em contexto clinico com idosos na perspectiva anti-inflamatória e antioxidante pelo que os resultados deverão ser replicados por outros grupos de forma a se confirmarem os resultados. Existiram algumas diferenças no rácio ómega-3/ómega-6 entre as duas dietas o que poderia influenciar os resultados, contudo o rácio foi mais alto no grupo WP o que por um lado ainda valida mais a acção do whey na Gpx e IL-6. Outras questões deveriam ser esclarecidas em futuros estudos como a duração da intervenção (provavelmente mais de 5 dias seria interessante).  
  


Cumprimentos,
Filipe Teixeira
Director Of Nutrition-Tudor Bompa Institute International
The Tudor Bompa Institute, Portugal
Direcção Técnica-Body Temple, Lda



As opiniões aqui contidas apenas reflectem a opinião do autor e não necessáriamente da empresa Body Temple Lda/Tudor Bompa Institute. Consulte sempre o seu médico ou profissional de saúde antes de enveredar por qualquer suplemento, plano alimentar ou tratamento


Bibliografia:
1.           Yoo S-H, Kim JS, Kwon SU, Yun S-C, Koh J-Y, Kang D-W. Undernutrition as a predictor of poor clinical outcomes in acute ischemic stroke patients. Arch Neurol. 2008 Jan;65(1):39–43.

2.           Dennis M, Lewis S, Cranswick G, Forbes J. FOOD: a multicentre randomised trial evaluating feeding policies in patients admitted to hospital with a recent stroke. Health Technol Assess. 2006 Jan;10(2):iii – iv, ix – x, 1–120.

3.           McNurlan MA, Sandgren A, Hunter K, Essén P, Garlick PJ, Wernerman J. Protein synthesis rates of skeletal muscle, lymphocytes, and albumin with stress hormone infusion in healthy man. Metabolism. 1996 Nov;45(11):1388–94.

4.           Mariotti F, Simbelie KL, Makarios-Lahham L, Huneau J-F, Laplaize B, Tomé D, et al. Acute ingestion of dietary proteins improves post-exercise liver glutathione in rats in a dose-dependent relationship with their cysteine content. J Nutr. 2004 Jan;134(1):128–31.

5.           Middleton N, Jelen P, Bell G. Whole blood and mononuclear cell glutathione response to dietary whey protein supplementation in sedentary and trained male human subjects. Int J Food Sci Nutr. 2004 Mar;55(2):131–41.

6.           Yamaguchi M, Yoshida K, Uchida M. Novel functions of bovine milk-derived alpha-lactalbumin: anti-nociceptive and anti-inflammatory activity caused by inhibiting cyclooxygenase-2 and phospholipase A2. Biol Pharm Bull. 2009 Mar;32(3):366–71.

7.           Luo M, Fernandez-Estivariz C, Jones DP, Accardi CR, Alteheld B, Bazargan N, et al. Depletion of plasma antioxidants in surgical intensive care unit patients requiring parenteral feeding: effects of parenteral nutrition with or without alanyl-glutamine dipeptide supplementation. Nutrition. 2008 Jan;24(1):37–44.

8.           Micke P, Beeh KM, Buhl R. Effects of long-term supplementation with whey proteins on plasma glutathione levels of HIV-infected patients. Eur J Nutr. 2002 Feb;41(1):12–8.

9.           Hays NP, Kim H, Wells AM, Kajkenova O, Evans WJ. Effects of whey and fortified collagen hydrolysate protein supplements on nitrogen balance and body composition in older women. J Am Diet Assoc. 2009 Jun;109(6):1082–7. 

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