quinta-feira, 2 de abril de 2015

Curcumina e cancro



A curcumina é na sua essência o pigmento amarelo (curcuminóide) associado ao caril, turmérico e gengibre. Poderá este curcuminóide ter efeitos benéficos no cancro? Que mecanismos poderiam explicar essa acção?




Introdução


A curcumina é na sua essência o pigmento amarelo (curcuminóide) associado ao caril, turmérico e gengibre. É na realidade uma classe diferente de polifenol mais próxima quimicamente dos flavonóides e estilbenos. Pensa-se que muita da sua possível actividade anticancerígena está relacionada com a sua potente acção anti-inflamatória. Porém atribuir a acção positiva no cancro apenas à função anti-inflamatória é bastante redutor, na realidade este composto tem outras vias moleculares bem interessantes nesta patologia. Caso se pretenda a acção da curcumina por via sistémica a mesma deverá ser ingerida em conjunto com piperina, em fitossoma ou nanoparticulada. Doses até 8 g/dia de curcuminóides parecem não levar a efeitos secundários significativos em humanos.



Estrutura da curcumina
Fonte: Web


Mecanismo molecular


A curcumina parece ter a capacidade de interferir com a acção da AP-1 nas células tumorais. Esta AP-1 é um dímero resultante essencialmente da c-Fos e da c-Jun, estando directamente envolvida na proliferação, sobrevivência e diferenciação celular (1) pela sua ligação ao receptor nuclear (2,3). É importante salientar que a acção da AP-1 depende das proteínas que a constitui, no entanto a curcumina apresenta a capacidade de interferir com a sua libertação em diversos promotores tumorais (4).




Outra acção interessante passa pela optimização de enzimas de fase II. A curcumina parece interferir nos factores de transcrição que mudam a expressão de complexos EpRE e da própria AP-1, via glutamato-cisteína ligase (5). A sua acção junto do mTOR também parece bem documentada sobretudo pela capacidade de inibir a ligação da subunidade Raptor com a proteína TOR. Este efeito leva consequentemente à inibição do mTORC1 não interferindo nas vias AMPK/TSC ou estimulando a via da fosfatase A2 (6,7).


Fonte:

Nature Chemical Biology
 
7,
 
9–17
 



A curcumina também parece possuir a capacidade de inibir outros factores como a DNA polimerase lambda (8), FAK (9), Src (9), PKC (10), p300 (11), TrxR (12), LOX (13) e tubulina (14). Em termos hormonais também apresenta acção interessante com a capacidade de inibir o 17-βHSD3 (15) e o 5-α-reductase (16). No que diz respeito ao metabolismo glucídico parece ter a capacidade de inibir a GSK3β, facilitando a assim a síntese de glicogénio (17).

Cancro


Um dos efeitos mais importantes da curcumina parece passar pela sua capacidade de inibição do NF-κB. É relativamente bem documentado que este factor nuclear possui a capacidade de influenciar a expressão génica assim como diversos factores de transcrição. De uma forma geral a TNF-α (citocina pró-inflamatória) acentua ainda mais esta acção do NF-κB ao induzir a mitose, sobrevivência e inflamação celular e tecidular.


Fonte: Nature Reviews Molecular Cell Biology 849-62


É precisamente nesta sinergia TNF-α/NK-κB que a curcumina apresenta um efeito bem interessante, já que a mesma aparenta ter a capacidade inibir/reduzir esta afinidade molecular. Importante também o facto de a curcumina não reduzir os níveis de TNF-α, sendo bem documentado que a acção desta proteína (quando a expressão da NF-κB é normal) pode induzir apoptose nas células cancerígenas via Fas/caspase-8 (18). É este mecanismo que aparenta facilitar a apoptose nas células tumorais pelo TNF-α, ao inibir a sobrevivência destas células via NF-κB (19,20). O mecanismo para esta acção da curcumina parece associado à interferência na p38 perante alguns activadores celulares (21–23).




Fonte:
Nature Medicine
 
19,
 
269–270
 


Como já foi mencionado a curcumina também aparenta ter a capacidade de inibir factores de transcrição associados ao NF-κB (24). Mas desengane-se quem julgue que a curcumina apenas influencia o NF-κB, na realidade ela possui também a capacidade inibir produtos da cascata inflamatória gerada por este factor nuclear, tais como: COX-2, ciclina D1, moléculas de adesão, MMP’s, iNOS, Bcl-2, Bcl-xL (25–27). Para encerrar a questão do NF-κB resta-me apenas frisar que esta inibição ocorre muito provavelmente pela acção da curcumina no IKK-β,reduzindo consequentemente a translocação deste factor (28).

Numa segunda linha mas provavelmente não menos importante, encontramos a acção da curcumina nas chamadas proteínas de especificidade, refiro-me às Sp1, Sp3 e Sp4. É relativamente bem demonstrado que estas proteínas são factores de transcrição que aumentam a sobrevivência e mitose celular (29)

Alguns estudos mostram a acção da curcumina in vitro em células tumorais da bexiga, levando em última instância à sua morte (29). Deverá ser notado, porém, que foram usadas concentrações na ordem de 10-25 μM e que o mecanismo envolvido no processo não é claro (pensa-se ligado à degradação proteossómica) (29). Em células B-CLL (leucemia) a curcumina também apresenta interessante acção ao induzir apoptose nas mesmas em torno de 5,5 μM (IC50) enquanto nas células saudáveis a concentração tinha de ser mais elevada, cerca de 21,7 μM (IC50) (30).

Mecanismos promissores também no cancro da próstata (inibição de metástases) (28)  e da bexiga (apoptose) (31).

Suplementação


Se a ideia for um efeito sistémico ou seja absorção pelos intestinos, a sua suplementação deverá ser efectuada com piperina (32) ou em conjunto com fosfatidilcolina (33). A opção da curcumina em nanoparticulas também pode ser viável (34). A necessidade de se utilizar estes compostos para aumentarem a sua absorção deve-se à sua fraca biodisponibilidade oral (35). Mesmo doses de 8 g parecem não ser suficientes para elevar os níveis em circulação (36), isto quando não associadas às estratégias mencionadas anteriormente.

Quando associadas às estratégias mencionadas, a dose ideal parece andar em torno de 80-500 mg/dia. Para fins não sistémicos (por exemplo intestinais) 2-4 g sem qualquer adjuvante de absorção parecem ser suficientes.  


Segurança


Estudos em humanos mostram que doses até 10 g/dia não estão associadas a toxicidade (37). Quando utilizando as estratégias para aumento de absorção mencionadas, 1 g durante 8 meses também não parece apresentar efeitos secundários (38).

Nos casos em que se verificaram efeitos secundários, geralmente em torno de 6 g/dia, os mesmos consistiram em flatulência e fezes amarelas, tendo desaparecido com a interrupção da suplementação (39).

Advertência


Apesar de ter um efeito promissor no cancro a evidência aqui apresentada sobre este curcuminóide é maioritariamente in vitro e em cobaias. Precisamos de estudos em humanos experimentais, controlados de forma podermos validar alguns dos mecanismos aqui descritos. Em circunstância alguma este composto deverá ser utilizado com o objectivo de tratar o cancro, exceptuando nos casos em que tal sucede sob supervisão médica.

Existem diversas especiarias chamadas de açafrão-da-india, porém algumas nem têm curcumina, a melhor fonte de curcuminóides que conheço é a Curcuma longa. É este extracto que devem procurar se querem curcuminóides, em particular curcumina.





Cumprimentos,
Filipe Teixeira
Director Of Nutrition-Tudor Bompa Institute International
The Tudor Bompa Institute, Portugal
Direcção Técnica-Body Temple, Lda



As opiniões aqui contidas apenas reflectem a opinião do autor e não necessáriamente da empresa Body Temple Lda/Tudor Bompa Institute. Consulte sempre o seu médico ou profissional de saúde antes de enveredar por qualquer suplemento, plano alimentar ou tratamento


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