quarta-feira, 8 de abril de 2015

Glutamina - suplemento inútil?



A glutamina é sempre um suplemento que gera algum grau de discórdia: para alguns tem efeitos extremamente importantes em diversas funções orgânicas, para outros é completamente inútil. Em que ficamos afinal?






Estrutura química


A glutamina é um aminoácido de estrutura bastante peculiar, apresenta um grupo amina em 2 carbonos quirais nas posições 2 e 5, sendo que a este C5 também se encontra ligado um grupo carbonilo (C=O). Assim em vez do nome comum glutamina a designação ácido (S)-2,5-diamino-5-oxopentanóico (IUPAC) será mais elucidativa.  Não gosto de atirar estes nomes sem explicar o que significam (S)-2,5 diamino (2 grupos NH2 no caso situados no C2 e 5), 5-oxo (grupo carbonilo ligado ao C5, C=O), penta (5 carbonos) terminação óico (função do ácido carboxílico, grupo ácido COOH). 



Defendo que não se deve falar do que não se sabe ou conhece e ainda menos que se digam nomes só porque sim. Já vi muito auto-intitulado expert atirar estes nomes e quando alguém lhe pede para explicar o porque, a resposta é: “Ah não sei, não me peçam para explicar, é assim”. Isso para mim não é resposta, para repetir o que outros dizem sem saber porquê, não precisamos de formadores mas sim dum papagaio treinado. Passando adiante…

Absorção/metabolismo

A glutamina é um aminoácido proteogénico, o que significa que ao contrário por exemplo da creatina integra proteínas. Tanto integra que é o facto de estar presente em conjunto com prolina (na realidade um iminoácido) que gera todo o problema digestivo da gliadina (prolamina do glúten), no entanto glutamina não é glúten, da mesma forma que uma maçã não é uma macieira. 

A glutamina é hidrolisada no intestino por proteases (enzimas que clivam as ligações peptídicas, na realidade do ponto de vista químico ligação amida) sendo absorvida maioritariamente no jejuno de forma livre a partir de transportadores dependentes ou independentes de Na+(1).   

Quando é absorvida em simporte com o Na+ obviamente existe gasto de energia (ATP), já que o mesmo tem de ser devolvido ao lúmen contra gradiente a partir da bomba Na+/K+ (3 Na+ out/3 K+ in) (2). A grande questão aqui prende-se com o facto de a glutamina ser o combustível preferencial de células com elevada taxa mitótica, como os enterócitos e as células do sistema imunitário (1). Na realidade os enterócitos captam cerca de 40 % da glutamina obtida por via entérica, restando cerca de 60 % para o fígado e tecidos somáticos após a sua entrada na circulação entero-hepática (1)

Provavelmente pensará, sendo um aminoácido semi-essencial ou condicionalmente essencial poderá ser produzido no fígado a partir do glutamato + NH3 logo esta questão da absorção no intestino é irrelevante. É um facto que sim, mas essa glutamina fica “presa” dentro do ciclo da ureia tendo como função transportar grupos amina e incorpora-los na molécula de ureia (NH2-CO-NH2) para posterior excreção (3). Ainda assim a glutamina representa cerca de 50 % do pool de aminoácidos livres no sangue e músculo-esquelético (4).



Funções

Note-se algumas das suas alegadas funções (sublinho alegadas funções):







O que sabemos sobre a glutamina?




-A glutamina tal como a alanina tem funções de transporte de grupos NH3 (resultantes da desaminação de aminoácidos) até ao fígado para incorporação na molécula de ureia. A glutamina exerce essa função nos tecidos extra-hepáticos enquanto a alanina sobretudo no músculo-esquelético. A aminação do piruvato forma alanina da mesma forma que a aminação do glutamato + ATP + Mg2+ forma glutamina (2).

-A própria glutamina pode ser desaminada gerando α-cetoácidos como o AKG (α-cetoglutarato) que sendo um intermediário do Ciclo de Krebbs pode facilitar a produção de equivalentes redutores contribuindo assim para síntese de ATP. A glutamina também pode ter efeito gluconeogénico pela via oxaloacetato/PEP-»glucose (2).

-Em contexto fisiológico não possuímos NH3 (na realidade só em laboratório em solução pura), ele comporta-se como base aceitando protões sendo convertido em NH4+ (ião amónio e também há quem lhe chame amoníaco).

-Tenho sempre algumas reticências nas quantidades de glutamina reportadas em alimentos e digo-vos porquê: quando hidrolisamos as proteínas para análise toda a glutamina é convertida em glutamato tornando difícil saber o que é glutamina e glutamato. Existe forma de resolver o problema? Sim, usando isótopos e enriquecendo a proteína, assim podemos perceber o que é glutamina e glutamato. O preço? Nada barato! Como sei isto? É a vantagem de no último ano ter trabalhado em Química Analítica, pior ainda no meu caso na área da Química-Física (Oh yeah… singuletos e transições respectivas).

Efeitos comprovados

Como podem verificar, bem distintos de algumas das suas alegadas funções:






Sabemos no entanto que tem efeitos interessantes no intestino, cancro colo-rectal, quimio e radioterapia.



Metabolismo






Glutaminase – converte glutamina em glutamato libertando amónia (base fraca)
Glutamina sintetase – Converte amónia em glutamina
Purinas: adenina e guanina
Pirimidinas: timina e citosina

Como sabemos quais as bases que se complementam no DNA? Os bioquímicos usam uma mnemónica em português Amor-Tem/Coração-Guardado ou seja Adenina-Timina e Citosina-Guanina. Apesar de lamechas funciona, acreditem.



Porque falha a glutamina em termos de efeito anticatabólico?

Aparentemente pela sua absorção dificultada por via entérica, lembra-se do intestino egoísta por glutamina? Agora pense que durante a circulação entero-hepática uns quantos leucócitos “sequestram” também glutamina, e depois o fígado… Talvez isso explique o efeito anticatabólico quando administrada por via parentérica (EV) e o oposto por via entérica…








Quanto olhamos para a via entérica (oral)…







A maior parte das pessoas que é contra a suplementação de glutamina pára aqui… Mas será essa a abordagem científica mais correcta? Não faz A, logo lixo. E se fizer B e C?




Aumento da síntese de glicogénio hepático pode ser interessante, será pela via do AKG?



Aqui acho interessante o efeito no HCO3- e fico menos convencido do efeito na hGH, até porque o efeito do exercício na mesma também é elevado. A amostra é também relativamente pequena (n=9).



Afinal quais os efeitos comprovados da suplementação com glutamina?




-Participação no equilíbrio ácido-base.
-Poupa leucina ao inibir a conversão dos BCAA’s em glutamina, também se acredita que a suplementação com BCAA’s possa poupar glutamina tendo um efeito positivo no sistema imunitário.
-Utilizada pelas células do sistema imunitário e outras células de elevada actividade mitótica.
-Redução da amónia e aumento da performance aeróbio.


Efeitos na leaky gut




-Tight junctions ou zonulas ocludentes são regiões que fundem duas membranas tornando-as permeáveis a fluído, estão presentes apenas nos vertebrados e são maioritariamente constituídas por proteínas (claudinas e ocludinas).
-Dois primeiros estudos citados in vitro e 3 últimos em cobaias (ratos e porcos). Apesar de maioritariamente em células e cobaias é bastante plausível o seu efeito positivo na mucosa intestinal em humanos.

Recomendações/advertências 


-Indometacina=Anti-inflamatório não esteróide (AINE).
-A utilização da temperatura é sobretudo pela melhor dissolução da mesma.
-Metotrexato=fármaco antifolato usada no tratamento do cancro.
-Paclitaxel=Inibidor da mitose usada também no tratamento do cancro.
-Reparem que a dose de 0,5g/kg/dia recomendada para o metotrexato é também o limite máximo, doses desta natureza devem ser apenas feitas sob supervisão médica.

Espero que esta pequena explicação vos tenha sido útil. Acredito que em ciência toda a informação deve ser tornada disponível e tratada da forma mais isenta possível, a decisão em última instância é sempre do leitor. Acha que deve colocar a glutamina no lixo ou tem utilidade?

Todos os slides aqui apresentados fazem parte da Certificação em Nutrição Desportiva TBI/WellXProschool/Nutriscience sendo assim protegidos nos termos da lei.

Deixo 2 recados a 2 tipos de pessoas:

a) Aquelas que me acusam de fazer parte da indústria e não ser isento no tratamento da informação.
b) Aquelas que plagiam a informação que coloco no blogue e até alguns esquemas apresentados por mim.

a) É pena que essas pessoas citam muitas vezes autores que são directores de multinacionais ligadas a bebidas isotónicas. Tem graça o facto dessas pessoas serem isentas e eu não. A outra hipótese é não saberem ou conhecerem quem citam. Tanto uma hipótese como outra não me parece nada bem... uma revela provincianismo a outra ignorância, até podem ser as duas quem sabe...

b) Um burro é sempre um burro, por mais doping que tome nunca chega a cavalo. Plagiar não vos torna mais inteligentes e só revela preguiça. Não me importo que usem a informação desde que mencionem a sua origem, tal como eu faço citando as fontes. Eu não inventei nada, a informação estava lá só me limitei a ler.  


Sim, estou aborrecido... 

Cumprimentos,
Filipe Teixeira
Director Of Nutrition-Tudor Bompa Institute International
The Tudor Bompa Institute, Portugal
Direcção Técnica-Body Temple, Lda




As opiniões aqui contidas apenas reflectem a opinião do autor e não necessáriamente da empresa Body Temple Lda/Tudor Bompa Institute. Consulte sempre o seu médico ou profissional de saúde antes de enveredar por qualquer suplemento, plano alimentar ou tratamento



Bibliografia adicional:


1. Wolinsky I, Driskell J. Nutritional Ergogenic Aids. Boca Raton: CRC Press; 2004.

2. Voet D, Voet JG, Pratt CW. Fundamentals of Biochemistry. 4th ed. New Jersey: John Wiley & Sons; 2013.

3. Caballero B. Guide to Nutritional Supplements. Caballero B, editor. Guide toNutritional Supplements. Oxford: Elsevier; 2009.

4. Shills M.E. et al. Modern Nutrition in Health and Disease. 10th ed.Philadelphia: Lippincott Williams & Wilkins; 2006.

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