domingo, 19 de abril de 2015

Poderão os suplementos para aumento da massa muscular aumentar o risco de cancro testicular?




Este recente estudo publicado no  British Journal of Cancer tem despoletado grande controvérsia. Mas o que nos diz realmente o estudo?









Bom, a introdução do artigo começa logo de forma interessante. Dizem os autores que a utilização de alguns suplementos alimentares está associada a toxicidade e cancro. Acredite-se ou não o primeiro suplemento a ser mencionado é precisamente a creatina [link]

Quando leio as referencias deparo-me com o seguinte: “Serum methylamine was found to be dramatically increased in uremic patients (14) probably due to impairment in renal clearance of methylamine and/or increase of creatine and creatinine metabolism led to formation of this amine”. Realmente a metilamina é um composto citotóxico mas este artigo referenciado não é sobre cancro testicular mas sim sobre insuficiência renal. A questão da creatina e dos seus efeitos secundários já foi discutida neste blogue pelo que não irei abordar novamente o assunto [link].

Mas de onde vem esta ideia de que a creatina provoca cancro testicular? Precisamente de uma frase neste estudo em que se diz que o formaldeído é cancerígeno: "Formaldehyde is extremely reactive and has been considered to be a major environmental risk factor for health. It cross-links proteins and DNAs. It is carcinogenic." De facto é, quando administrado em doses elevadas para estudo de toxicidade em cobaias ou inalado de forma acidental [link]. De qualquer das formas uma revisão de literatura mais recente mostra que a suplementação com creatina em humanos (mesmo em fase de carga) não altera os níveis destes compostos mutagénicos (metilamina e formaldeído) dentro das concentrações consideradas normais [link].

E agora quem tem acesso ao artigo pensa: bom mas são duas referências e a outra? O outro estudo citado foi efectuado em ratos tendo sido administrado formaldeído (e não creatina), em doses suprafisiológicas [link]. O objectivo foi precisamente ver o efeito de elevadas concentrações deste composto no cancro testicular em ratos. Por isso nada a ver com suplementos para aumento da massa muscular, a não ser que o formaldeído seja um novo suplemento...? 

Porque estou a perder tempo a ler as referências citadas no estudo em questão? Porque o pai da Epidemiologia moderna Bradford Hill definiu 9 critérios para que se pudesse estabelecer causalidade em estudos epidemiológicos. Um deles é a plausibilidade biológica, ou seja qual o mecanismo que pode explicar a associação encontrada. A pergunta fica: Acham que estes estudos citados confirmam a acção da creatina como causador de cancro testicular? Eu sinceramente acho que não. Fica outra pergunta: Será que os referees desta revista estavam suficientemente dentro do assunto (suplementos alimentares) para poderem validar esta publicação?!


O estudo


Trata-se de um estudo caso-controlo (da doença para a exposição) efectuado entre 2006 e 2010 em 2 estados norte-americanos. Os participantes tinham entre 18 e 55 anos tendo sido seleccionados 356 casos e 513 controlos. Os casos tinham critérios rígidos de confirmação de cancro testicular tendo sido fornecida uma tabela com as características de ambos os casos os controlos.



Após tudo isto os autores definem uma categoria designada de MBS (muscle building supplements) que inclui qualquer individuo que tenha consumido um destes suplementos alimentares pelo menos uma vez por semana durante mais de quatro semanas consecutivas. Todos os dados obtidos são obtidos por meio de questionário e entrevista. 

Agora perguntam: Quais os suplementos incluídos nesta categoria (MBS)? Não sabemos! Foram considerados mais de 30 suplementos sendo os principais proteínas, creatina e androstenediona! Sim leram bem androstenediona. Uma pró-hormona (na realidade um cetoesteróide pela presença de um grupo carbonilo na posição 17 em vez de um grupo hidroxilo) é colocada na mesma categoria do que o whey e creatina. A sério?! Se este estudo fosse publicado no dia 1 de Abril não ficaria espantado...

Já agora uma nota, a presença de criptorquidismo de base era maior no grupo dos casos do que no grupo de controlo. Isto não seria importante? Por acaso, só por acaso... alguns estudos indicam que o criptorquidismo aumenta o risco do cancro testicular [link] [link] [link] mas enfim... Será que estas diferenças de base não influenciam os resultados? 

E depois... Surpresa! Conclui-se que existe maior risco de cancro testicular para quem ingere MBS (e ainda é um OR bem significativo):




   

Comentários

-Este tipo de estudo não estabelece relação causa-efeito, uma vez que é um estudo observacional (caso-controlo).

-Colocar creatina, proteína e androstenediona na mesma categoria é algo que não faz qualquer sentido (têm a mesma acção fisiológica e a mesma acção a nível endócrino?). Falam nestes 3 mas ao todo foram considerados mais de 30 suplementos, quais eram os outros? Que raio de categoria MBS é esta?!

-Assumem que o que está no rótulo dos suplementos é real ou seja não foi feita qualquer análise aos suplementos.

-Interessante estamos a falar de OR (odds ratio) aumentado para quem reportou algo incluído nesta muito vaga categoria de suplementos, onde está o rigor?! Para mim qualquer OR calculado numa categoria tão aberta como esta vale zero, uma vez que não se sabe o que foi considerado como MBS. E sim o que lá está e em que proporções é importante, já que as mesmas contribuem para o efeito encontrado. Ninguém explicou aos autores que whey não é androstenediona?!

-Qualquer suplemento consumido 1 vez por semana por mais de 4 semanas consecutivas era considerado MBS. Ora então 30 g de whey por semana durante um mês contava para o efeito?! Querem-me mesmo convencer que uma scoop de whey por semana aumenta o risco de cancro testicular? A minha área de investigação é o whey e desconheço RCT's que mostrem qualquer efeito do mesmo no cancro testicular. Agora conheço alguns estudos que mostram efeito anti-cancerígeno com o whey... e então se olharmos para o HAMLET (não não é o escritor) e o BAMLET facilmente diria que até tem alguns efeitos anti-cancerígenos.

-Tendo em conta que nesta categoria MBS cabe tudo e mais alguma coisa, que conclusões se retiram deste estudo? Muito poucas. Porque será que não dividiram a análise por classe de suplementos (ou descriminaram os suplementos)?

-Já agora que garantias temos que estes participantes não usaram esteróides anabolisantes? Alguém perguntou aos participantes? Tanto questionário e algo tão importante como isto não foi perguntado? Será que não deveriam ter sido excluídos indivíduos que tivessem usado esteróides anabolisantes? Depois diz-se que a ingestão de proteína e creatina (quando eliminado o efeito por regressão logística e linear dos outros suplementos) aumenta na mesma o risco de cancro testicular. E tentar saber se um enorme factor de confundimento como o uso de hormonas esteróides está presente? Não?! Ou será que quem toma whey e creatina nunca usa esteróides anabolisantes? Em cobaias o uso de esteróides anabolisantes parece aumentar o risco de cancro testicular [link], enfim...

Por vezes aponta-se para a lua e há quem só queira ver o dedo.


Cumprimentos,
Filipe Teixeira
Director Of Nutrition-Tudor Bompa Institute International
The Tudor Bompa Institute, Portugal
Direcção Técnica-Body Temple, Lda




As opiniões aqui contidas apenas reflectem a opinião do autor e não necessáriamente da empresa Body Temple Lda/Tudor Bompa Institute. Consulte sempre o seu médico ou profissional de saúde antes de enveredar por qualquer suplemento, plano alimentar ou tratamento



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