segunda-feira, 29 de junho de 2015

Suplementos antioxidantes e performance: Vitamina E e quercetina


Uma das questões mais debatidas em relação à suplementação com antioxidantes prende-se com os seus pretensos benefícios na performance. No entanto será que no caso destes dois compostos a evidência científica suporta as suas recomendações?



A elevação do consumo de oxigénio durante o exercício, leva de uma forma genérica, à formação de espécies reactivas de oxigénio (ROS) na mitocôndria (1). A própria contracção muscular parece iniciar uma cascata enzimática a partir da fosfolipase A2, tendo esta contributo decisivo na formação de espécies reactivas (2). Os efeitos deletérios destas ROS são bem conhecidos, pelo seu efeito prejudicial na estrutura e função célular, dano muscular, imunossupressão e fadiga (3).

No entanto, hoje são também conhecidos os seus efeitos positivos. Elas estão envolvidas na síntese de glicogénio (4), reduzem o risco de infecção (5) sendo ao mesmo tempo importantes no início do processo de adaptativo ao exercício (6–9). A grande questão aqui é a seguinte: Se um excessivo stress oxidativo é prejudicial, até que ponto inibir esse stress oxidativo em demasia não prejudicará a performance? Reparem que aqui apenas nos interessa a performance, questões inerentes à saúde não serão aqui abordadas. Nem tudo o que é benéfico para a saúde é benéfico para a performance e vice-versa.

Quando falamos de antioxidantes provenientes da dieta, algumas revisões parecem concordar que são benéficos ou pelo menos não prejudiciais (10,11). No entanto o efeito destes compostos quando oriundos da dieta poderá ser bem diferente da sua suplementação. Os alimentos são uma mistura normalmente complexa de compostos, podendo os antioxidantes beneficiar da sinergia dos vários nutrientes e fitoquímicos presentes no alimento.

Em seguida irei fazer uma ligeira abordagem sobre os antioxidantes vitamina E e quercetina e os efeitos da sua suplementação na performance.


Vitamina E


Esta vitamina lipossolúvel é conhecida pela capacidade de proteger as membranas celulares da peroxidação lipídica. A lise celular parece uma consequência normal dos desportos em altitude, tendo sido teorizada a possibilidade da suplementação com vitamina E ser benéfica. Em termos de estudos com dose aguda, 2 estudos parecem dar pistas sobre o seu efeito: Um em ratos (12) e outro em humanos (13).

O efeito na performance no estudo em humanos é muito modesto. Verificou-se uma melhoria de cerca de 2 % em 14 ciclistas, tendo estes sido avaliados num estudo experimental cruzado, em que se avaliou o tempo até a fadiga a 70 % do VO2max. Contrastando com estes resultados, verificou-se um aumento de 139 % no estudo em ratos. Porém 2 questões devem ser sublinhadas: 1) a administração foi efectuada por via intramuscular nas cobaias; 2) o protocolo radical de colocar as cobaias numa piscina até a fadiga extrema (até quase se afogarem) é algo que não se compara ao treino em atletas ainda que de alta competição. Isto é algo que me preocupa quando se retiram ilações deste tipo de estudos, não se perceber os efeitos das diferentes vias de administração e sobretudo o quão desajustado da realidade de um atleta é o tipo de protocolo de treino aplicado.

Como explicar a diferença de resultados? Provavelmente pela via de administração. Tem sido reportado pela literatura dificuldade na elevação dos níveis de vitamina E, quando administrada per os, provavelmente por degradação hepática e excreção renal aumentada (14). Quando observando os vários estudos, os efeitos em desportos praticados ao nível do mar são de benefício modesto ou apresentam mesmo redução da performance. Na realidade os efeitos mais significativos são obtidos em estudos com cobaias (12,15). No segundo estudo citado, o resultado foi observado em ratos idosos submetidos novamente a protocolo extremo de exercício. Um estudo em humanos também revelou um aumento de 18 % na performance, porém este foi efectuado em alpinistas (16).

Os vários estudos consultados, clique para ampliar

Os restantes estudos mostram benefícios modestos em desportos ao nível do mar, o que mostra o efeito bastante reduzido que a suplementação com esta vitamina poderá ter nestes desportos. Em termos de efeitos prejudiciais na performance, 5 estudos foram publicados com a diminuição a variar entre 4 % e 1,5 % em relação ao grupo de controlo. Um destes estudos foi publicado por um grupo de investigadores portugueses e avaliou a suplementação em 20 canoístas treinados (14 homens e 6 mulheres) (17).


A existirem efeitos benéficos na performance com esta vitamina, eles estariam restritos à administração aguda por via parentérica (extrapolando a partir de estudos com cobaias) (12) e à administração crónica em atletas de desportos de altitude (16). Em qualquer dos casos a evidência não permite recomendar a suplementação com vitamina E, sendo necessária claramente mais investigação nesta matéria. De uma forma geral a suplementação com vitamina E poderá ter efeitos mais prejudiciais do que benéficos na performance (10).

Quercetina


Este flavonóide encontrado em alguns alimentos possui uma estrutura fenólica responsável, em parte, por muita da sua actividade antioxidante. Alguns alimentos como as alcaparras e as maçãs são particularmente ricos neste composto (18). No que diz respeito ao seu efeito em termos citológicos, muita da sua acção está relacionada à biogénese mitocondrial assim como à redução da percepção de esforço em resposta ao exercício físico (19).

As 2 meta-análises efectuadas até ao momento mostram efeitos extremamente reduzidos na performance com a quercetina: 0,7 % e 0,8 % na potência em indivíduos não treinados e 0,1 % em indivíduos treinados (20,21). A partir da pesquisa em ratos poderia ser possível extrapolar que a quercetina tivesse alguns efeitos positivos em exercício de longa duração (> 100 min) (22), no entanto estudos em humanos mostram resultados quase insignificantes na performance (↑ 0,8 %) (23). Olhando para a tabela seguinte os resultados são extremamente conflituantes, verificando-se melhorias na performance em humanos de 13,2 % e efeitos prejudiciais de 11 %.

Os vários estudos consultados, clique para ampliar

Com esta variação de efeito torna-se praticamente impossível fazer recomendações em relação a este antioxidante. É no entanto plausível que a quercetina possa ter alguns efeitos positivos na performance em desportos de endurance, sobretudo em doses de aproximadamente 1 g/dia (10). Em relação ao tempo necessário de suplementação e ao seu efeito agudo na performance, a evidência actual não permite retirar qualquer ilação. A quercetina, contrariamente à vitamina E, muito provavelmente não terá efeitos prejudiciais no desempenho. No entanto os seus efeitos benéficos são bastante baixos, sendo em alguns estudos praticamente irrelevantes. Tal como na vitamina E, o efeito mais significativo é encontrado em estudos com cobaias.



Cumprimentos,
Filipe Teixeira
Director Of Nutrition-Tudor Bompa Institute International
The Tudor Bompa Institute, Portugal
Direcção Técnica-Body Temple, Lda




As opiniões aqui contidas apenas reflectem a opinião do autor e não necessáriamente da empresa Body Temple Lda/Tudor Bompa Institute. Consulte sempre o seu médico ou profissional de saúde antes de enveredar por qualquer suplemento, plano alimentar ou tratamento



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2.           Sakellariou GK, Jackson MJ, Vasilaki A. Redefining the major contributors to superoxide production in contracting skeletal muscle. The role of NAD(P)H oxidases. Free Radic Res. 2014 Jan;48(1):12–29.

3.           Finaud J, Lac G, Filaire E. Oxidative stress : relationship with exercise and training. Sports Med. 2006 Jan;36(4):327–58.

4.           Richardson RS, Donato AJ, Uberoi A, Wray DW, Lawrenson L, Nishiyama S, et al. Exercise-induced brachial artery vasodilation: role of free radicals. Am J Physiol Heart Circ Physiol. 2007 Mar;292(3):H1516–22.

5.           Hurst RD, Wells RW, Hurst SM, McGhie TK, Cooney JM, Jensen DJ. Blueberry fruit polyphenolics suppress oxidative stress-induced skeletal muscle cell damage in vitro. Mol Nutr Food Res. 2010 Mar;54(3):353–63.

6.           Gliemann L, Schmidt JF, Olesen J, Biensø RS, Peronard SL, Grandjean SU, et al. Resveratrol blunts the positive effects of exercise training on cardiovascular health in aged men. J Physiol. 2013 Oct 15;591(Pt 20):5047–59.

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9.           Ristow M, Zarse K, Oberbach A, Klöting N, Birringer M, Kiehntopf M, et al. Antioxidants prevent health-promoting effects of physical exercise in humans. Proc Natl Acad Sci U S A. 2009 May 26;106(21):8665–70.

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22.        Davis JM, Murphy EA, Carmichael MD, Davis B. Quercetin increases brain and muscle mitochondrial biogenesis and exercise tolerance. Am J Physiol Regul Integr Comp Physiol. 2009 Apr;296(4):R1071–7.

23.        Ganio MS, Armstrong LE, Johnson EC, Klau JF, Ballard KD, Michniak-Kohn B, et al. Effect of quercetin supplementation on maximal oxygen uptake in men and women. J Sports Sci. 2010 Jan;28(2):201–8.

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